“Nossa natureza é antagônica, ambivalente sempre”, diz o fotógrafo Claudio Edinger, que encontrou no sertão da Bahia o local e o povo perfeitos para criar uma de suas mais belas séries de obras, os retratos da mostra De Bom Jesus a Milagres, em exibição no Museu da Imagem e do Som (MIS). São imagens coloridas, um trabalho em que a técnica representa o meio ideal para se alcançar uma carga simbólica – ao utilizar uma máquina especial, uma câmera de grande formato de filmes de 4×5 polegadas, as fotografias apresentam uma atmosfera em que apenas um de seus pontos está focado.
Edinger gosta de fazer citações – do pintor Francis Bacon, afirma que o papel do artista é aprofundar mistérios; do pós-impressionista Paul Cézanne, que a cor é onde o cérebro e o universo se encontram. Ao jogar com o foco/desfoco, o fotógrafo diz querer expressar “o verdadeiro olhar da gente”. “A fotografia toda focada não representa a nossa visão, vemos o entorno das coisas sempre desfocado.”
Assim, um homem ou uma mulher tornam-se “quase espíritos” nas imagens dessa série, parados em frente de suas casas ou de um muro amarelo. A menina de Andaraí, que acabou de pintar as unhas dos pés, é retratada com esse destaque. Um cemitério bizantino em pleno sertão ganha uma perspectiva diferente, transforma-se em uma linha branca em plena paisagem. Uma cigana negra, sobre fundo azul, lembra Ingres, mas é contemporânea também com o foco apenas nos seus dentes de ouro. E por aí vão as imagens, sempre requerendo nosso mergulho – e não à toa, todas elas estão em grande formato, 1,40 m x 1,70 m.
Ir e vir nas fotografias, assim como o fotógrafo, que fez sete viagens à Bahia, entre 2005 e 2012, para realizar as obras da série. “Quero fazer o mapeamento do País”, diz Claudio Edinger, que além de exibir 28 imagens na exposição no MIS – com curadoria de Leonel Kaz -, lança livro do trabalho De Bom Jesus a Milagres, editado pela Bei. O sertão baiano, lugar do “inadequado”, é retratado com a cor deslumbrante numa maneira de transcender a “esterilidade” da localidade. As informações são do jornal O Estado de S.Paulo.


