Não é todo dia que uma única obra de um artista motiva uma exposição inteira. No Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo, o MAC USP, uma peça do artista italiano Umberto Boccioni (1882-1916) é uma das poucas no mundo que tem força para tanto e é o motor da mostra Continuidade no Espaço, atualmente em cartaz.

A escultura Formas Únicas da Continuidade no Espaço, de propriedade do museu, é quem dita o tema central. A ideia surgiu a partir do trabalho de duas pesquisadoras da obra do italiano, a curadora do MAC Ana Magalhães e a curadora do Museu Victoria & Albert, de Londres, Rosalind McKever.

As duas passaram, cada uma em seu próprio estudo, cerca de cinco anos analisando os trabalhos de Boccioni, até que pensaram em montar a exposição. Além da escultura em gesso original do MAC, a mostra conta com a versão original em bronze feita posteriormente, já depois da morte do artista, e estudos para a obra, além de muita documentação produzida pelas curadoras/pesquisadoras e pela USP.

“É uma exposição diferente, centrada numa única obra do museu”, analisa Ana. “Algo importante era inserir a obra numa cronologia para mostrar como a obra sobreviveu através do tempo, como as versões em bronze se tornaram mais conhecidas que o gesso.”

Além do trabalho das curadoras, a exposição mostra também estudos técnicos e materiais sobre a obra, feitos no Instituto de Física da USP. “Montar a exposição para a gente foi um desafio, precisávamos pensar num projeto expográfico acessível, traduzir para o público os procedimentos científicos, os bastidores do trabalho de conservação do museu e explicar a história do material para a arte.”

Mas qual é, afinal, a importância da obra de Boccioni? O artista foi um dos maiores nomes do chamado movimento futurista italiano, que pregava uma libertação dos modelos e das tradições figurativas em vigência até então. Formas Únicas da Continuidade no Espaço, por sua vez, ganha uma importância ainda maior por não apenas ser uma escultura do artista, mais conhecido pela pintura, como por sua forma e material. “Das quatro esculturas sobreviventes, o Brasil tem duas, que estão no MAC”, explica Magalhães. “É considerada a obra-prima quando se fala em escultura futurista. É uma peça que vai muito além do artista ou de apenas uma coleção.”

A curadora afirma que a obra que pertence ao MAC, que não é exposta internacionalmente desde os anos 1980, voltou a chamar a atenção do museu em 2009, quando começaram a surgir pedidos de empréstimo, para exposições de comemoração dos 100 anos do futurismo. A partir daí, o museu da USP começou a investigar a peça e um alerta surgiu para a original de gesso.

“Não emprestamos mais a obra. O que a gente tinha em relatório se confirmou. Ela é muito frágil e o transporte seria uma responsabilidade muito grande”, explica Ana. “Em 2012, o museu voltou a ser consultado para um empréstimo para uma mostra retrospectiva do (museu) Guggenheim, mas entendemos que é um risco e que é um patrimônio nosso, precisamos conservá-lo.”

O MAC, agora, pretende iniciar um trabalho de restauro da obra. “O próximo passo é entender se nós conseguimos recuperar a coloração original”, esclarece a curadora. “É um projeto de pesquisa, temos de entender os materiais e até onde o restaurador pode ir.”

Algumas mudanças já foram feitas na apresentação da obra, para melhorar a sua preservação. O antigo pedestal, muito alto e estreito, foi retirado, para evitar que a obra caísse de uma grande altura. Agora, também, a obra fica protegida numa vitrine. “Percebemos que é uma peça que adere camadas de poeira. A vitrine não é o ideal para a apresentação, mas é uma medida de conservação da obra.”

BOCCIONI

MAC USP

Av. Pedro Álvares Cabral, 1.301, tel.2648-0258.

3ª a dom.,10h às 21h.

Grátis.Até 24/3

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.