O sofrimento show. Em geral, a preferência vem ocorrendo por outro tipo de sofrimento, o sofrimento show. Aquele das suspeitas ou das confirmações de câncer em pessoas famosas como Ana Maria Braga e Patrícia Pilar, ou de outras doenças, e de vítimas de seqüestro, de atropelamento etc., com abordagens na saída do hospital, na rua e na porta de casa.

Mônica Fort, mestre em educação, diretora e professora do curso de comunicação da PUCPR, afirma que “há realmente uma banalização do sofrimento do cotidiano. O jornalista muitas vezes tem fugido da ética por causa da prática, por causa da concorrência, da visão que tem de mercado. (…) Acho que há valorização de atrocidades, há uma disfunção do jornalismo nessa questão.”

Para que os jornalistas não contribuam com a revitimação, ocasionada pelo assédio da mídia às vítimas de acidentes, seqüestos etc., nos Estados Unidos despontam estudos universitários e cuidados éticos relativos à forma de extrair informações das vítimas. Na avaliação do Instituto Gutemberg (2001), boas experiências “são os seminários Cobertura de Vítimas, desenvolvidos pelo Instituto Poynter de Estudos sobre a Mídia, com sede na Flórida. O diretor, Bob Steele, reúne jornalistas e vítimas de crime ou outras tragédias para a troca de experiências.”

O jornalista como trabalhador e o capital. Há que se lembrar também que, segundo o psicólogo Martin Cohen, também os repórteres são vítimas secundárias potenciais devido à natureza do trabalho e podem sofrer de síndrome-pós-trauma depois de cobrir uma tragédia. “A tendência dos profissionais é negar e esconder os sintomas, mas num período de 72 horas depois da cobertura de uma tragédia, os jornalistas começam a compensar o trauma de algum jeito. Bebendo, por exemplo.”(Cohen, 1998). Estudos realizados, em 1998, por Luiz Antonio Nogueira Martins, coordenador do departamento de psiquiatria da Universidade de São Paulo, comprovam que os jornalistas apresentam a primeira maior incidência de alcoolismo entre profissionais de nível superior no Brasil.” (Martins,2002)

“A experiência mostra que os repórteres parecem se revestir de uma carapaça emocional quando vão cobrir tragédias, e no calor da hora não saem da única sintonia que lhes permite trabalhar impunemente: a da notícia.”(Instituto Gutemberg, 2001). Mas “eles não estão maquiavelicamente preocupados em manipular o público para aumentar o lucro das empresas para as quais trabalham, em particular, e dos capitalistas, em geral. Se o jornalista age como condicionador daqueles a quem se dirige, não é pelo desejo de condicioná-los e sim por ser ele próprio condicionado, a um grau que ele, como a maioria na profissão, não percebe”, afirma Alain Accardo (1998), professor de sociologia da Universidade de Bordeaux – III (França).

No Paraná, segundo a jornalista Mônica Fort, “a mídia (…) é refém de um sistema econômico que não é só do Paraná (…). Os jornais não conseguem ter tanta autonomia, não vivem da tiragem. Dependem muito dos departamentos comerciais, do marketing das parcerias, das contas de governo, de Prefeitura. Já foi pior. Há mostras de uma procura pela liberdade, mas ainda são mais evidentes essas dependências do que em outros Estados. Não que lá não existem. Existem. Mas aqui, para nós, é bastante visível e é uma pena, porque há bons profissionais (…) e o mercado acaba sendo pequeno.”

Cursos de comunicação. A diretora do curso de comunicação da PUCPR relata que, em 1998, ao desenvolver a pesquisa de mestrado, colocou uma questão optativa aos estudantes universitários: de um lado haveria oportunidade de cobrir um evento em que o secretário da saúde estaria discutindo sobre saúde pública; de outro lado, a cobertura de um jogo de futebol em que o Ronaldinho estaria jogando. O que eles prefeririam cobrir? A opção de 70% foi pelo jogo, devido à emoção. “No jogo, eles não poderiam interferir, mas na saúde, mesmo não interferindo, poderiam questionar e tentar descobrir o que está por detrás do que estivesse sendo proposto. O que daria primeira página com a foto do Ronaldinho fazendo gol não daria com a discussão da Saúde Pública”, comenta a jornalista. Também em pesquisa divulgada pelo jornal O Estado do Paraná, em 13 de janeiro de 2002, 53,3% dos professores entrevistados concordaram que falta consciência crítica na universidade.

Mas, se as paixões do capital impulsionam a valorização do sofrimento show, infeliz daquele que se acomoda e se torna passivo. Acaba perdendo sua identidade. Resistir e lutar para ser um professor diferente, um aluno diferente, um trabalhador diferente, um jornalista diferente é muito importante para ser sujeito da história. Uma das maneiras de concretizar essa marca pessoal de diferença é pela pesquisa. Para a professora de comunicação da PUCPR, “no jornalismo, se o aluno sabe estudar uma teoria sobre um assunto, então para qualquer assunto ele vai fazer isso. Talvez ele passe a achar que o assunto relacionado à saúde é tão ou mais importante do que o jogo de futebol. (…) Se ele pesquisa, vai valorizar história, filosofia, sociologia e entender melhor a aplicação disso”.

E conseguirá encontrar a notícia escondida na vida cotidiana do trabalhador.