Apenas um filme dedicado a Sebastião Salgado poderia realizar a proeza de segurar o público no cinema após uma maratona que começou às 20h e foi terminar às 2h da madrugada. Foi o que aconteceu no Theatro José de Alencar, com a exibição, fora de concurso, de O Sal da Terra, de Wim Wenders e Juliano Ribeiro Salgado. O longa, com estreia prevista para dezembro, esmiúça, com graça, emoção e inspiração, a carreira do nosso maior fotógrafo. No final da sessão, um público cansado, porém agradecido pelo que tinha visto, aplaudiu longamente.

O filme, descrito por espectadores com palavras como “luxuoso”, “duro, porém de uma beleza incrível”, refaz a vida de Salgado, mineiro de Aimorés, através do seu trabalho. Mas a contempla em várias etapas. Da infância na fazenda aos estudos em São Paulo. Da saída do país durante a ditadura militar à formação em Economia no exterior. Do cargo no Banco Mundial à descoberta da sua grande vocação, o que mudaria a sua vida, a de sua família e as de tantas outras pessoas.

Já instalado no campo da fotografia, o filme debruça-se sobre as diversas fases do percurso de Salgado, fazendo um arco que vai do fotógrafo social, preocupado com a miséria do mundo, ao apaixonado pelo trabalho humano e, por fim, pela natureza e pelo planeta Terra, esta nossa casa tão maltratada e ainda tão bela.

Mas, no fundo, é o ser humano o centro do universo de Salgado. “As pessoas são o sal da Terra”, ele diz, e daí vem o título do filme.

Trabalhando em parceria com o filho de Sebastião Salgado, Wenders retoma seu melhor pulso de documentarista. Rigor, uso inteligente e moderado de uma trilha sonora estupenda, discernimento para sacar o que existe de essencial em trajetória tão brilhante quanto diversificada. Filme de fato recompensador. E que talvez levante algumas questões já com certa rodagem, porém ainda não resolvidas, como: o que significa a estetização da fome e quais as possibilidades de representação (no caso fotográfica) da miséria humana extrema. São temas éticos, que ficam à margem do documentário, mas podem muito bem serem debatidas pelo público inteligente que o vê.

Crise na Espanha

Com Os Fenômenos, o espanhol Alfonso Zarauza cria, explicitamente, uma metáfora da crise econômica do seu país. Neneta (Lola Dueñas) é a mulher com filho pequeno obrigada a se empregar como trabalhadora braçal em uma obra para sobreviver, apesar de ter a escolaridade que, em tempos melhores, poderia empregá-la em outras funções. “Minha ideia com este filme é dar uma bofetada de realidade para mostrar quem são os verdadeiros responsáveis pela crise econômica”, diz o diretor.

O filme tem a ambição de refletir, de maneira crítica e do ponto de vista dos trabalhadores, sobre os efeitos deletérios da crise econômica. Por exemplo, em meio a essa dura história de sobrevivência, Neneta deverá optar entre dois amores, um libertário, que a convida a jogar tudo para o alto e seguir viagem, e outro, mais “burguês”, que a chama para a estabilidade. “Mas, no fundo, o que decide por ela é a crise econômica e não seus desejos mais íntimos”, diz. A crise, no fundo, funciona como os deuses da tragédia grega, tecendo e desfazendo destinos humanos.

Zarauza falou também sobre o bom momento do cinema da Galícia, região de onde é proveniente. “Houve lá um governo inteligente que decidiu colocar o dinheiro, em pequenas quantidades, nas mãos dos artistas e não dos produtores culturais; nasceram assim filmes de orçamentos muito modestos, porém criativos, e que têm sido muito bem recebidos, tanto na Espanha quanto nos festivais no exterior. Zarauza compara a independência dos galegos com o cinema que se faz em Madri, “mais industrial, e, portanto, mais suscetível aos efeitos da recessão econômica”.