Rara oportunidade esta, a de conhecer a África por um congolês que estudou na Sorbonne e romancista premiado é a grata oportunidade ofertada pela Record ao editar no Brasil o romance O lírio e o flamboyant (tradução de Luiz Guerra, 464 páginas). Nele, seu autor Henri Lopes – embaixador do Congo na França e vencedor do Grand Prix de la Francophonie da Academia Francesa em 1993 – explora as diferenças entre brancos e negros. Para dar forma à idéia, o autor contrapõe o lírio, símbolo do império francês, aos flamboyant, árvore nacional congolesa. Os dois funcionam como alegorias da dicotomia metrópole-colônia, desenvolvimento-subdesenvolvimento.

O lírio e o flamboyant tem como narrador Huang – chamado Sinoa, o poeta -, um mestiço sino-africano, cineasta e escritor ocasional. O próprio autor, Henri Lopes, funciona como personagem secundário, um alter-ego pouco simpático e até desleal. Também mestiço, ele busca abrir seu próprio espaço entre o mito e a realidade, entre o europeu e a negritude militante, entre a autoridade e a revolta.

O caminho dos dois parece interligado, principalmente quando ambos resolvem biografar a cantora congolesa Simone Fragonard, também chamada de Koletê. O livro que temos em mãos faz as vezes do de Huang. O título O lírio e o flamboyant foi inspirado na mais conhecida canção da biografada, exatamente para se distanciar do livro de Henri, chamado Kolelê. A morte da cantora desencadeia no narrador lembranças que o fazem ir em busca dos testemunhos da sua vida, reconstituindo o cotidiano africano nos anos 50 e 60, quando Kolelê se torna a musa dos movimentos de independência.

Premiado escritor e político importante no Congo, Henri Lopes proclama: “A África é mestiça”, e a miscigenação é o espaço da diversidade, entre a pureza branca do lírio e o esplendor do flamboyant, um hibridismo atípico e singular.