Desde os idos de 1950, um dos recursos mais comuns de adaptação de peças teatrais, incluindo os gregos e Shakespeare, tem sido a relocalização do texto (adaptado apenas em cortes, ajustes de vocabulário e gramática) em épocas mais recentes. Isso é feito, geralmente, através dos signos teatrais de figurino, cenário e/ou música, que passam a ilustrar um tempo/espaço diferentes do da peça antiga e servem para sugerir um conteúdo universal e intemporal. No cinema, isso também é comum. Um exemplo bem conhecido foi o Romeu e Julieta de Baz Luhrman, com Leonardo Di Caprio, transposto para Los Angeles da década de 90, enquanto o texto de Shakespeare era enunciado em inglês do século dezesseis.

O público aplaude e os artistas continuam fixando esses espetáculos, sem perceber que eles não contribuem para o desenvolvimento de uma dramaturgia afinada com as contradições do nosso tempo. Se a grande característica dos autores de prestígio é dialetizar o passado e o presente de suas épocas, seja de maneira reacionária ou revolucionária, esse aspecto é, muitas vezes, ignorado por quem remonta os seus textos e nem chega a balbuciar o presente, através de sugestões vagas sobre a intemporalidade e a universalidade dos temas das peças antigas apropriadas. Assim, também monta-se Bertolt Brecht pelas rubricas, quando um dos maiores desejos de Brecht foi o de que suas peças não fossem remontadas, mas servissem de ponto de partida para a reproblematização de seus temas, conforme o contexto de recepção!

Entre muitas peças deste Festival, Orgia (Pasolini, dir. Roberto Lage), As Suplicantes (Ésquilo, dir. Isa Kopelman) e As Cadeiras (Ionesco, dir. Waterloo Gregório) me instigam a propor uma questão: por que montar peças antigas preservando os seus textos sem uma dramaturgia complementar? Para quem deseja conhecer os textos, o valor para familiarização é óbvio. Mas… e daí? Reconhecer a universalidade temática das obras de qualquer autor (mesmo Shakespeare) sem recontextualizar o conteúdo das peças é reforçar os seus arquétipos mais nefastos, principalmente os de violência. Os estereótipos também se enraizam como o chavão: “Foi assim e sempre será.”

É ingenuidade pensar que a humanidade superou a misoginia de Orgia, a xenofobia de As Suplicantes ou a impotência civil de As Cadeiras. Mas também é simplismo fixar a universalidade e a intemporalidade desses temas sem revê-los à luz de quatro gerações de feminismo e do totalitarismo atual. Não basta colocar Pasolini em figurino atual, Ésquilo sobre uma lona de caminhão com tambores de óleo, ou Ionesco numa cenografia sem referência geográfica para instigar o público de hoje a repensar os seus temas. Nesse círculo vicioso em que a carência de dramaturgia complementar puxa os espetáculos para baixo, vemos muita descrição e bastante banalização.

Seria preciso reelaborar os conteúdos para que nosso pessoal de teatro fosse além da montagem de peças, buscando novos textos, roteiros e espetáculos a partir de suas fontes, conforme fizeram dramaturgos de prestígio. Nesse sentido criativo,valeu assistir Veredicto (texto e direção Gilmar Rodrigues), com notável proposta de releitura e que, merecidamente, ganhou duas sessões extras, conquistando o seu espaço como uma das revelações desse Fringe.

Margarida Gandara Rauen é Ph.D. em dramaturgia e encenação. Professora do Depto. de Teatro da FAP (Curitiba) e do Curso de Arte-Educação da Unicentro (Guarapuava).