A cada cena de Páginas da Vida fica explícito o olhar feminino do autor Manoel Carlos. E esta feminilidade começa nos longos diálogos, sustentados por discursos e teorias sobre o relacionamento humano, passa pela relação cotidiana entre casais, amantes, filhos e vizinhos para chegar, finalmente, no próprio relacionamento do autor com o público. Ela está evidente não só no texto, mas também nos depoimentos que costuram o final de cada capítulo como um desfecho, em que pessoas comuns, quase sempre mulheres, relatam, sem pudores, suas aventuras e desventuras amorosas, perdas ou situações por quais passaram. Uma espécie de convite à reflexão emocional. É quase como ?discutir a relação?.
O eterno feminino está presente também na própria trama, sempre numa constante gestação. Manoel Carlos tem a capacidade de fecundar um assunto, preparar seu crescimento embrionário até explodir num polêmico parto. Temas como a própria discussão da inclusão e exclusão social da criança portadora da síndrome de Down, bem como a abordagem da aids ainda parecem estar num processo de gestação. O assunto que o autor pariu esta semana, literalmente com o nascimento dos gêmeos e a morte da mãe Nanda, de Fernanda Vasconcellos, passou por uma rápida gestação na primeira fase de trama. E foi o pontapé inicial de toda a polêmica que o autor pretende abordar com a síndrome, ainda muito pouco discutida nos meios de comunicação, assim como aconteceu com a leucemia da personagem Camila, de Carolina Dieckmann, em Laços de Família. Diante de assuntos ainda pouco ?explorados?, Maneco apresenta uma faísca polêmica que sempre envolve mães e filhas, basicamente.
Enquanto alguns partos são prematuros na trama, o autor prepara outros nascimentos e discussões sobre a materninade, que envolvem desde mães de primeira viagem como a Olívia, de Ana Paula Arósio, ou a Márcia, de Helena Ranaldi. Basta dizer que a própria protagonista, a Helena de Regina Duarte, é uma obstetra renomada. Isso sem falar na neurose das mães que se projetam nas filhas e novamente geram alguma polêmica em torno de alguma outra enfermidade, como a Anna, de Debora Evelyn, que, de tanto se preocupar com a aparência da filha Giselle, faz com que a menina desenvolva uma bulimia.
Já a abordagem latente sobre as atitudes femininas procura subterfúgios em outras discussões, como a valorização da disciplina pelos personagens de Olívia e Silvio, de Ana Paula Arósio e Edson Celulari, quando ele fala sobre a carreira militar e a dificuldade de se fazer escolhas. Ou seja, uma temática absolutamente didática e feminina, do exemplo de disciplina e ordem passado pelas mães. E como não poderia deixar de ser, até a valorização do autor com um ícone masculino da cafajestagem, através do personagem Gregório, de José Mayer, também é uma visão feminina. Dessa forma, com a naturalidade desmedida do autor sobre o universo feminino, fica difícil livrar-se do espelho.


