É mais que provável que Roger Deakins termine recebendo o Oscar de melhor fotografia pelo trabalho notável em 1917, o épico de guerra de Sam Mendes que, por sinal, ganhou o prêmio do Sindicato dos Produtores, no sábado à noite, em Los Angeles, convertendo-se, em definitivo, no favorito à disputa do prêmio da Academia, em 9 de fevereiro. Seja um, ou sejam dois planos sequências, o desafio de acompanhar, em movimento/tempo contínuo, a portentosa saga de dois soldados atravessando o campo de batalha merece todas as recompensas do mundo. Mas está sendo um grande ano para toda a categoria. De todas as dez indicações colhidas por O Irlandês, nenhuma talvez seja mais merecida que a de Rodrigo Prieto como melhor diretor de fotografia.

Dependendo do seu grau de adesão, você pode apreciar o trabalho do elenco, o roteiro de Steven Zaillian, até a direção de Martin Scorsese, e isso por mais que aquelas 3 horas e tanto pesem como chumbo. Mas a fotografia envolve boa dose de inovação técnica. Exigiu muito planejamento, como a de 1917. Foi o que contou, numa entrevista por telefone, Rodrigo Prieto.

Em primeiro lugar, quem é ele. Nasceu na Cidade do México em 1965 – tem 54 anos. Cursou a universidade e adquiriu projeção quando assinou a fotografia Amores Perros/Amores Brutos, iniciando a colaboração com Alejandro González-Iñárritu que prosseguiu através de 21 Gramas, Babel e Biutiful, que considera seu melhor trabalho. Fotografou também Argo, de Ben Affleck, O Segredo de Brokeback Mountain, de Ang Lee e iniciou outra colaboração – com Martin Scorsese: O Lobo de Wall Street, O Silêncio e O Irlandês. Concorreu ao Oscar também por Brokeback Mountain e O Silêncio. No Ang Lee, foi ator, uma pequena participação como gigolô.

Cada um de seus filmes com ‘Marty’ – Scorsese – colocou um problema específico. “Pela própria natureza do tema, o dinheiro e a droga produzindo uma vertigem de poder, a câmera do Lobo tinha de ela própria ser uma personagem frenética, desestabilizando o espectador. NO Silêncio, foi o oposto. A viagem era interior, a câmera tinha de passar uma espécie de contemplação.”

E com O Irlandês? “Foi o filme que mais deu trabalho, o que mais exigiu preparação. Foi o orçamento mais elevado da carreira de Marty – US$ 179 milhões -, e todo o dinheiro está na tela. Marty sempre gostou dos planos-sequência elaborados, basta lembrar o início de Os Bons Companheiros, de 1991. Na decupagem do roteiro de Steven (Zaillian), ele definiu de cara que queria dois grandes planos contínuos, um logo no início, quando a câmera procura e encontra o personagem de Bobby (Robert De Niro) no asilo e outro no assassinato na barbearia, quando a câmera acompanha a dupla de assassinos desde que eles sobem a escada. O desafio desses planos é que, ou você constrói o cenário ou encontra um com as dimensões que necessita. O que ocorre com muita frequência é uma combinação de locação e estúdio agregado. O asilo era um cenário único de estúdio. A escada e a barbearia uma combinação dos dois.”

Mas isso foi só parte do problema em O Irlandês. A encrenca começou com a decisão do diretor de criar o look de coisa antiga para o relato que atravessa décadas. “O filme tem 117 locações para um total de 319 cenas. Em busca dessa textura ‘old fashioned’, e depois de muita pesquisa, decidimos que as cenas dos anos 1950 teriam um look Kodachrome; as dos 60, Ektachrome; as dos 70 teriam um banho prateado e, as dos 80, seriam mais saturadas que as de qualquer outra época no filme. Deveríamos ter começado a filmar em agosto de 2017, mas o plano atrasou mais de um mês. Iniciamos em setembro e fomos até março de 2018, num total de 108 dias de filmagem. Utilizei ‘lookups tables’ para as diferentes cenas.”

Isso quer dizer que Prieto e sua equipe de fotografia usaram tabelas de pesquisas com as quais controlavam o grau de saturação das imagens. O visual, os planos contínuos, tudo isso já seria suficiente para levar o diretor de fotografia ‘al borde’ – à beira de um ataque de nervos.
Prieto, que conversa com o repórter em inglês, detalha certos procedimentos técnicos em espanhol. Sente-se mais à vontade, como diz.

“Como a narrativa (de ‘O Irlandês’) atravessa décadas e temos um elenco principal (Robert De Niro, Joe Pesci e Al Pacino) de septuagenários, batendo nos 80, a questão era o rejuvenescimento desse atores. Num determinado momento, cogitou-se até usar atores mais jovens nos flash-backs, mas Marty não quis nem ouvir falar. Também não queríamos práticas usuais de maquiagem.
Filmamos em 35 mm, com câmeras Arrican e a RED Helium, mas usamos a Alessa Mini para o processo de rejuvenescimento. Isso significa que, nas cenas em que os personagens aparecem jovens, usamos ‘a custom-three camera rig’, ou equipamento para três câmeras personalizado. A imagem de cada ator era captada com três câmeras para produzir um efeito tridimensional, e era sobre essa imagem em três dimensões que os efeitos digitais eram operados para remoçar Bobby, Joe e Al.”

O resultado não é só um tour de force técnico. Envolve um conceito e, quando Prieto o formula, a vontade é relevar que o filme seja tão devagar – “É um filme sobre homens que olham para eles mesmos de uma perspectiva mais velha.”

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.