Americano gosta de ver suas cidades destruídas.

Hollywood deve detestar Nova York. Senão, como explicar que, além de atentados e outros desastres reais que se abatem sobre a cidade, ela mereça também ser destruída, invadida por alienígenas, saqueada e incendiada em filmes que a indústria chama de “catástrofes”? No mais recente, O Dia Depois de Amanhã, que estréia hoje em todo Brasil, Manhattan é parcialmente invadida pelo oceano e, em seguida, congelada. São efeitos de um desequilíbrio climático extremo – tema desse inacreditável longa-metragem dirigido por Roland Emmerich.

Quem vai assistir a um filme, em geral adota aquele princípio da suspensão da natural desconfiança, atitude sem a qual não se consegue “entrar” no espírito da coisa. E, claro, o filme conta com a habitual competência de Hollywood para efeitos gráficos, acidentes, catástrofes, vidros quebrados e coisas do gênero. A trama, também como de hábito, é ralinha como sopa de hospital.

Temos aqui o inevitável cientista, Jack Hall (Dennis Quaid) que alerta os incrédulos sobre o aquecimento global. Nesse ponto (e em outros), o filme assume o lado politicamente correto. De um lado há Jack, o paladino; de outro, os capitalistas gananciosos, que temem perdas se o país assinar o Protocolo de Kyoto. É engraçado como, nesses filmes, Hollywood se comporta como se nada tivesse a ver com o que acontece com a política que os Estados Unidos aplicam ao mundo.

Jack não é ouvido e as conseqüências não se fazem esperar. Chovem pedras de gelo no Japão, há neve na Índia, furacões varrem Los Angeles e para Manhattan está reservado o pior: um súbito e drástico esfriamento, capaz de matar todo mundo e tornar inabitável aquele rincão de prazeres. O filho de Jack (Jake Gyllenhaal) fica preso em Nova York e o pai vai ao seu encontro. Sob neve e vento contrário.