Como se encarnasse uma mistura doida de Liam Gallagher, do Oasis, com Shaun
Ryder, do Happy Mondays, o cantor inglês Tom Meghan abriu os braços com os dedos
indicadores apontados para direções distintas, leste e oeste, e marchou parado
no mesmo lugar, com a cabeça baixa e os joelhos erguidos. Era uma quinta-feira à
noite, estávamos no Irving Plaza, nas imediações da Union Square, em Nova York,
e Meghan nem mesmo era o astro principal da noite – sua novidadeira banda
britânica Kasabian era "convidada especial" dos garotos do The Music, também
ingleses (mas de Leeds, enquanto o Kasabian é de Leicestershire).

Mas a
noite já estava ganha para a banda intrusa e o desembarque americano do Kasabian
deixou a platéia americana atônita e hipnotizada. Tanto que o público nem
agüentou o The Music até o final, foi embora antes.

Como aconteceu com o
Oasis, anos atrás, era como se uma pequena gangue de hooligans doidos e
incoerentes resolvesse fazer o rock vibrar de novo por mais uma temporada.
Meghan é até fisicamente parecido com Liam Gallagher, tem a voz potente e
inconfundível de um rufião de pub, usa umas roupas cool sem grife e sem glamour,
como aqueles tênis Vans. Abraça fãs no meio da pista, adora criar um clima de
guerrilla gig, de show improvisado.

Meghan tem a seu lado o guitarrista
Sergio Pizzorno, que também pilota uns sintetizadores antigões, com climas meio
Depeche Mode. Sua fonte de inspiração é muito clara: Primal Scream na veia.
Sintetizadores antigos e guitarras vintage. Pizzorno é um grandalhão de lenço de
dândi no pescoço, de poucas palavras, barbicha igual à do Salsicha, parceiro do
Scooby Doo. Meghan é insolente e parece debochar de tudo, até de sua condição de
astro em ascensão.

Poucas bandas em ação no momento, no mundo do pop
rock, têm a inspiração e a energia do Kasabian – o nome foi emprestado de Linda
Kasabian, ex-motorista do assassino de Sharon Tate, o serial hippie Charles
Manson. Linda Kasabian dirigia para a gangue de Manson nos anos 60 e foi
testemunha-chave para que Manson fosse mofar na cadeia.

Eles têm peso e
delicadeza, sarcasmo e ternura em doses exatas. A primeira faixa da noite, Club
Foot, já adiantava que o Kasabian gosta do ritmo dance, não tem nada contra o
ritmo, mas também adora confundir as expectativas. Acaricia e depois desce o
porrete. Em seguida, veio "Reason Is Treason", seu potente grand-guignol, com
uns beats maravilhosos, barulhos dançáveis e um baixo funky ao estilo seventies.
Nessa grande canção, eles parecem concordar com Susan Sontag (que provavelmente
nem sabem quem foi), quando ela dizia que "pensar é uma forma de sentir; sentir
é uma forma de pensar". "Reason Is Treason" é daquelas obras-primas que tanto
podem esquentar a noite na Lôca quanto algum galpão de rockers na Barra
Funda.

As letras do Kasabian parecem falar de rebeliões incompletas,
nonsense, sentimentos definidos em cadernos de espiral adolescentes (como "corto
ondas como um sábio que ainda está por nascer"). No limite entre o dançável e o
pulável (Tom Meghan dança desconjuntadamente, no mesmo descompasso ébrio de
Bobby Gillespie, do Primal Scream). "God bless you, God bless you!" ("Deus os
abençoe!"), agradecia Meghan à platéia, num reverência doida,
extremada.

À esquerda de Pizzorno, o segundo guitarrista, Christopher
Karloff, pilota os badulaques eletrônicos da banda, criando os efeitos e
dobrando sons (eles têm ainda Chris Edwards no baixo). Seus fetiches são de um
tempo que nunca existiu: batidas à Stone Roses, roupas de brechó modernista,
danças lisérgicas contra as luzes do teto e as sombras no chão. O garoto na
platéia não acredita e grita para o amigo ao lado: "Perfeito, simplesmente
perfeito!"

Pode ser que outras bandas tenham pegado senha primeiro para
balançar 2005, mas o Kasabian tem toda pinta de que vai furar a fila.