Paloma Duarte e Rodrigo Santoro
são os protagonistas centrais.

Manoel Carlos costuma dizer que não existe fórmula para escrever um bom folhetim. Os trunfos do autor, no entanto, já se transformaram numa espécie de marca, que se repete a cada trabalho. Em “Mulheres Apaixonadas”, o principal deles foi parar até no título: as personagens femininas sempre foram as grandes estrelas em suas tramas. Mas também estão lá os indefectíveis dramas familiares, a poesia dos pequenos fatos do cotidiano, a identificação com o dia-a-dia do espectador e as paisagens da Zona Sul do Rio de Janeiro, especialmente o Leblon, bairro onde mora o autor.

A heroína, batizada de Helena nas tramas do autor desde “Baila Comigo”, de 1981, ganhou tons mais modernos. A de Christiane Torloni é a primeira que não passa por cima dos próprios anseios em função da felicidade dos outros. Já na semana de estréia, dá para perceber que os conflitos da professora de História terão pouco em comum com as protagonistas anteriores, como as de Vera Fischer e Regina Duarte – em “Laços de Família” e “Por Amor”, respectivamente -, que faziam de tudo pela realização das filhas. Ao lado das irmãs, ela conversa abertamente sobre sexo, desejo e paixão. E Christiane imprime charme, elegância, vitalidade e uma boa dose de simpatia à personagem.

A Helena da vez também se diferencia por dividir o tema central e a função protagônica com inúmeros outros personagens, com destaque para as irmãs, Hilda e Heloísa, vividas por Maria Padilha e Giulia Gam. Diretor da trama, Ricardo Waddington já apontou este como um de seus principais trunfos. Com 104 personagens na sinopse, o autor tem material suficiente para garantir o fôlego durante os longos meses de exibição, investindo em várias frentes. Uma delas teve grande destaque já na semana de estréia. As cenas do agitado casamento de Marina com o mulherengo Diogo, personagens de Paloma Duarte e Rodrigo Santoro, cumpriram a função de apresentar os principais personagens, evitando o marasmo e o didatismo comuns aos primeiros capítulos das novelas.

Marasmo, aliás, foi algo que passou longe dos primeiros momentos da trama. Só no primeiro capítulo, houve parto, enterro, atropelamento de idoso, atropelamento de cachorro, casamento e sexo no chuveiro. O ritmo lento e sombrio de “Esperança” deu lugar ao excesso de informações, com cenas marcadas por agilidade, leveza e a indefectível trilha sonora recheada de bossa nova. O saldo foi positivo: no primeiro capítulo, a novela manteve média de 45 pontos no Ibope, com picos de 50.

Outra marca de Manoel, os pequenos papéis ganham destaque na história – empregadas domésticas, motoristas, recepcionistas e porteiros, vizinhos e amigos -, muitos deles entregues a atores iniciantes. Em alguns casos, a aposta parece promissora, como o bonitão Rafael Calomeni, que vive o peão Expedito, e Leonardo Miggiorin, que já mostrou a que veio na pele do rebelde Rodrigo. Já Tila Teixeira, que vive a médica Teresa, não consegue sequer dizer um “oi” com um mínimo de naturalidade. E Pitty Webo, intérprete de Marcinha – que enfrentou cenas mais difíceis logo de cara -, ainda precisa convencer.

Algumas das relações que prometem causar polêmica já ficaram claras nos primeiros momentos. O interesse de Estela por padre Pedro, personagens de Lavínia Vlasak e Nicola Siri, e o da extravagante Lorena por Expedito, devem render momentos tão marcantes quanto o reencontro de Helena com César. O único problema é que Suzana Vieira parece ainda estar interpretando a megera Branca, de “Por Amor”. José Mayer mais uma vez vive o galã cobiçado e um tanto insensível, e parece ter pouco a acrescentar a sua galeria de conquistadores. Já Tony Ramos encara com maestria um tipo inédito em sua carreira. Boa-praça como de costume, Théo vai ser traído pela mulher, mas também esconde seus segredos. Pelo que foi insinuado nos primeiros capítulos, ele pode ser o pai da filha de Fernanda, interpretada por Vanessa Gerbelli. E assim, ao som de muita bossa nova e naqueles cenários que parecem “merchandising” da secretaria de turismo carioca, segue a nova novela de Manoel Carlos, em busca dos telespectadores entorpecidos pela chatíssima “Esperança”, que foi a última a morrer, mas já foi tarde.