Na impossibilidade de escrever o roteiro tão sonhado para seu filme, por falta de experiência, o autor Daniel MacIvor fez o que sabia fazer. Escreveu a peça Marion Bridge (1999). Só então com a trama finalizada, o canadense partiu para a versão cinematográfica que seria lançada em 2002.

Quem assistir A Ponte, que estreia nesta sexta, 1º, no Centro Cultural Banco do Brasil, poderá conhecer, não só o texto da peça de MacIvor mas ter uma experiência simultânea, inspirada no roteiro do filme.

No palco estão Bel Kowarick, Debora Lamm e Maria Flor, que interpretam Theresa, Agnes e Louise, três irmãs que se reencontram em casa para enfrentar os últimos momentos de vida da mãe, que está doente. O trio não poderia ser mais diferente, afirma Maria. “Theresa, a mais velha é católica e sempre vai à igreja. Agnes é uma atriz, e costuma beber bastante. Já Louise, a caçula, é considerada mais introspectiva, no canto dela, e amante de séries de TV.”

Pode parecer uma sinopse simples, mas quem já assistiu ou conhece algum texto de MacIvor sabe que encontrará surpresas. O canadense é autor de peças vertiginosas, que costumam ultrapassar o que se chama de metalinguagem.

Mestre em criar jogos dramáticos, tão comuns à rotina de artistas do palco, MacIvor invade com humor a vida natural de quem compartilha a intimidade, como é em In On It, que narra a história de um casal em diferentes momentos da vida. Ao mesmo tempo, eles também ensaiam uma peça sobre a vida de um casal. Em meia hora de espetáculo, a peça estrelada em 2010, por Fernando Eiras e Emílio de Mello criava uma espiral que se iguala ao ritmo de viver: impossível de ser capturado. É dele também À Primeira Vista (2012), com Drica Moraes e Mariana Lima, e Cine Monstro (2013), que sai do terreno do afeto para apresentar os delírios de morte e ódio de um assassino, com um história de crimes em família, também embaralhados por muitas personagens e tramas entrelaçadas.

Em A Ponte, a pretensão das irmãs parece ser mais inofensiva. “Elas querem garantir que ocorra tudo bem na despedida da mãe, um momento tão difícil” conta Bel. No palco, o trio se reúne na cozinha da casa, expressa na direção de Adriano Guimarães com um acúmulo de objetos de cor vermelha, desde potes, vasilhas, eletrodomésticos, uma obsessão em vermelho. “É o lugar banal, do cotidiano, que funciona como um microcosmo para reunir, ou quem sabe reconstruir pontes, entre pessoas tão diferentes”, afirma o diretor.

Mas não é só da cozinha que tudo será contado. “A fixação de Louise por séries também faz parte da cena” completa ele. O diretor conta que traz as rubricas do roteiro inseridas na peça, transmitidas em uma televisão. “É uma forma de juntar essa parte do cinema para o palco, como o autor buscou. Na tela vão aparecer detalhes sobre sons e barulhos, e a descrição das cenas da série assistida por Louise.”

Então, não se engane, o humor de MacIvor está em cena e a presença de Debora explica parte disso. No início, Agnes tenta se defender por bebe bastante e diz, irritada: “Eu bebo para relaxar, quem bebe para ficar bêbada é mulher fácil. Não sou uma mulher fácil, embora já tenha tentado.” Para a atriz, A Ponte é a peça do autor mais bem sucedida: “Ela provoca identificação na plateia. Quando estreamos em Belo Horizonte, as pessoas voltaram e levaram seus parentes.”

Se o ano de 2018 serviu para testar a convivência nas festas familiares, a atriz faz um paralelo com a peça. “Os debates e discussões provaram que agora é mais que necessário exercer a empatia e o diálogo. Ouvir.”

A PONTE

Centro Cultural Banco do Brasil. R. Álvares Penteado, 112. Tel.: 3113-3651. 6ª, sáb, 2ª, 20h, dom., 18h. R$ 30. Estreia 1º/2. Até 25/3.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.