“O que é teatro contemporâneo? E quem disse que o teatro contemporâneo não pode ser realista?”, provoca Daniel Veronese. Um dos nomes mais festejados da efervescente cena de Buenos Aires, o diretor argentino voltou recentemente à tradição do teatro realista dos séculos 19 e 20. “Pretendo descobrir o que os torna clássicos, porque voltamos sempre a eles.”

Mas não fez desse retorno ao passado a busca por um terreno seguro. Ao contrário, encontrou em obras consagradas uma possibilidade para o risco, o lugar para exibir uma teatralidade particular e autoral. É isso que se pode comprovar em “Espia a Uma Mulher Que se Mata”, versão de Veronese para “Tio Vânia”, do russo Anton Chekhov (1860-1904).

Na peça, que cumpre curta temporada no Sesc Belenzinho a partir de hoje, o texto de 1897 merece novos contornos. “Chekhov continua tão atual que parece que seus personagens nos falam de hoje. Trata de questões primárias de necessidade e orfandade, de busca da verdade, de algo que nos explique o sentido da vida e de seus sofrimentos”, disse o diretor em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo em setembro do ano passado.

Veronese, que começou sua trajetória profissional como mímico e títere de bonecos, é um dos fundadores do grupo El Periférico de Objetos. Em carreira solo, destacou-se também como dramaturgo e construiu uma sólida reputação como diretor. Além de “Tio Vânia”, na última década o encenador portenho releu ainda “As Três Irmãs”, obra chekhoviana que recebeu o intrigante título de “Um Homem Que se Afoga”. Outro grande nome do teatro realista, Henrik Ibsen (1828-1906), também esteve na mira do diretor: “Hedda Gabler” passou a ser chamada de “Todos los Goviernos Han Evitado el Teatro Íntimo”. E “Casa de Bonecas” aparece com o nome de “El Desarrollo de la Civilización Venidera”.

Em todas elas, Veronese ressalta um traço comum. Distancia-se cada vez mais de elementos cênicos. Recursos como iluminação, música e figurino passam a ser supérfluos. E concentra-se no trabalho do ator, dando-lhe primazia absoluta. “O ator é a base fundamental de cada uma das minhas obras. Pretendo plantar a vida em cena, em cada segundo da obra, para que tudo aconteça naquele espaço, entre aqueles atores. Que os atores digam pouco e façam muito”, explica ele, que participa de um debate sobre a criação do espetáculo no domingo, às 15 horas. São Paulo é a quarta cidade brasileira a receber a montagem. Antes, as plateias de Porto Alegre, Rio de Janeiro e Santos já puderam assistir à encenação. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

Espia a Uma Mulher Que Se Mata – Sesc Belenzinho (Rua Padre Adelino, 1.000). Tel. (011) 2076-9700. 5ª e 6ª, 20h; sáb., 17h e 20h; dom., 17h. R$ 6/R$ 24. Até 22/5.