A rejeição do espaço tridimensional, a aposta nas cores como delimitadoras das formas, a pincelada espontânea: todas essas características fizeram do Fauvismo uma corrente importante na Europa que, no início do século 20, repensava a arte.
E tê-la como pano de fundo para narrar a história de “A Viúva Alegre”, de Franz Lehár, é um achado interessante da produção de Miguel Falabella, que estreou na noite de quinta-feira, 14, no Teatro Municipal de São Paulo, encerrando a temporada lírica da casa.

É em 1905, afinal, que Lehár se volta ao formato da opereta para torná-la uma vez mais vienense – em oposição às obras de caráter social e político que o francês Jacques Offenbach criara décadas antes em Paris e que conquistavam fama em toda a Europa tirando sarro do Segundo Império e seus vícios. Em Viena, por sua vez, tornaram-se marcantes ao longo do século 19 obras de caráter acima de tudo sentimental.

A volta ao passado é característica de momentos de transformação tão grandes como o vivido por Viena no início do século 20. Perante o questionamento que toda novidade carrega, a volta ao conhecido (seja ele qual for, e mesmo muitas vezes problemático) pode parecer, afinal, um consolo.

Mas Lehár, olhando para a tradição, e dando a ela nova riqueza musical, também falava de seu tempo. Não por fazer da crítica social seu tema, mas, sim, pela caracterização de personagens cuja voz incorpora um cinismo e um espírito decadentista já difíceis de disfarçar em um Império Austro-Húngaro que começava a se esfacelar.

Falabella assina, além da concepção cênica, a adaptação e tradução para o português do texto de Leo e Leon Stein sobre a tentativa da elite de Pontevedro de casar a viúva Hannah Glawari com um cidadão do reino, para evitar que sua herança vá para outro país. A escolha recai sobre Danilo, com quem a moça já havia tido um caso no passado.

Falabella mantém o cinismo do original e tenta também aproximá-lo de referências da nossa época. O diretor brinca com a visão a respeito da mulher, por exemplo, ao inserir no libreto a definição “bela recatada e do lar” quando trata da jovem Valenciana e sua hesitação perante o adultério; e põe em primeiro plano uma caracterização da elite de Pontevedro como alheia ao tecido social de que faz parte.

Mas, para que ele funcione, é preciso estar atento à agilidade necessária em um formato que intercala diálogos falados e números musicais – e que, dentro da música, recria diferentes climas e ambientes, do brilho dos salões vienenses à delicadeza da doce canção de Vilja, na qual Hannah relembra o campo (em composição musical tocante de Camila Titinger), passando pela ironia do monólogo em que Danilo (o experiente barítono Rodrigo Esteves) celebra a preguiça como qualidade no trabalho na embaixada.

E, na noite de estreia, isso nem sempre aconteceu. Há atuações marcantes: o barão Zeta jamais histriônico de Sandro Cristopher; o divertido Njéguis de Adriano Tunes; o lírico Camillo do tenor Anibal Mancini; a envolvente Valenciana de Lina Mendes; ou a divertida Silvia de Edna D´Oliveira. Mas, em geral, caracterizações amaneiradas, assim como a leitura uniforme do maestro Alessandro Sangiorgi, acabam arrastando uma narrativa em que o tempo é fundamental. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.