Pode até ser respeitável – admito que seja – um humanismo sem Deus, que alguns ateus e agnósticos têm exercitado às vezes. É o caso de Bertrand Russel e Camus, Malraux e Sartre, para citar apenas um quarteto emblemático. Mas trata-se de um humanismo de calças curtas e pés descalços, rasteiro e chão, sem perspectivas transcedentes, sem um horizonte de futuridade luminosa – ou iluminante.

Nesse humanismo em ponto pequeno, o homem acaba por assumir uma posição horizontal, paralela à terra que acabará por deglutir irremediavelmente a sua carne e os seus ossos. Já o humanismo com Deus, consubstanciado nas religiões, sobretudo nas religiões monoteístas, de modo especial no cristianismo em que se assenta a cultura ocidental, e mais intensamente, quiçá, na sua vertente católica, é um humanismo em que o ser humano se apresenta e patenteia na plenitude da sua verticalidade existencial: de pé, voltado para o céu como um dardo de carne que o arco da fé distende. Ou para lá tendendo, numa espécie de tropismo espiritual insopitável.

Estas considerações ligeiras me ocorrem após a leitura de um livro magnífico que se intitula Cruzando o limiar da esperança, de autoria desse papa admirável que

é João Paulo II. Que nele se revela não apenas um teólogo inspirado, de alta magnitude, mas sobretudo um intelectual culto, de saber enciclopédico, quando não erudito, de erudição multifacetada e protéica. No livro em apreço, tive oportunidade de encontrar uma série de indagações, encarnando dúvidas e perplexidades que eu próprio gostaria de ter formulado. Mas Sua Santidade responde a todas elas com profundidade, muitas vezes perpassada pelo sopro da beleza verbal, estilística, e quase sempre prenhe da transparente fé pessoal. É certo que nem sempre dá respostas que erradiquem as dúvidas em caráter definitivo. Talvez nem sempre consigne respostas que eu, na minha insignificância pensante, gostaria de ver mais cristalinamente expressas. Não obstante, mesmo que as suas considerações emblemáticas não aplaquem em toda a plenitude as dúvidas humanas, demasiado humanas, do cristão, do católico, tenho que admitir que essas dúvidas se tornaram incomparavelmente menores. Uma coisa ficou clara, extremamente clara, após a leitura do livro precioso: é sempre melhor crer. Sem a crença, sem a fé que só a religião propicia, dificilmente o ser humano, limitado e precário, contingente e imperfeito, radicalmente frágil na sua muito humana humanidade, achará um sentido para a vida, uma diretriz para a existência.

Definitivamente, crer é preciso. Ou, pelo menos, tentar crer. Ou desejar crer. Na apetência radical da fé reside o sustentáculo da própria fé. Como disse o imenso Drummond, há muitas razões para duvidar e uma só para crer. Disse bem.

João Manuel Simões

é escritor da Academia Paranaense de Letras.