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Nem sempre ser “revelado” em um programa é garantia de sucesso na carreira artística

  • Por Jornalista Externo

As tardes de sábado voltaram a servir de palco para um dos mais tradicionais gêneros da tevê brasileira: o programa de calouros. No dia da semana consagrado pelo extinto Buzina do Chacrinha – do saudoso Velho Guerreiro e o bordão “Vai para o trono ou não vai?” -, Globo e Record disputam a audiência do público enquanto calouros se revezam em busca da fama.

De um lado, o tradicional Programa do Raul Gil, com direito à bancada de jurados e prêmios em dinheiro. Do outro, o moderno Fama, que incluiu novidades no formato, como o convívio dos candidatos e votação via telefone e internet. “Os meus calouros dão de dez nos da Globo. O pessoal lá é meio desafinado”, tripudia Raul Gil.

Pelo menos no quesito “vendagem de CDs”, os calouros do Raul Gil levam vantagem sobre os do Fama. De lá, saíram o cantor gospel Robinson Monteiro e a dupla lírica Rinaldo e Liriel. O primeiro vendeu 750 mil cópias do álbum Anjo e o segundo, 250 mil do CD Romance, uma compilação de “hits” da música erudita. Enquanto isso, Vanessa Jackson e Marcus Vinícius, ganhadores da primeira e da segunda edição do Fama, não tiveram a mesma sorte. “Impossível prever quem vai e não vai fazer sucesso. Não há regras. Aliás, se eu soubesse quem vai estourar, não traria para o Fama, contratava de vez”, desdenha Mariozinho Rocha, produtor musical do Fama.

A cantora Vanessa Jackson até lançou CD, mas a vendagem de 30 mil cópias decepcionou a BMG. Mesmo assim, ela se diz feliz por fazer uma média de 10 shows por mês. “O pessoal achou que, só porque apareci na Globo, venderia milhões. Mas não faço música comercial. O importante é que está dando para pagar as minhas contas”, avalia. Já Fael Mondego, também do Fama, nem chegou a gravar CD. Em compensação, comandou o Jovens Tardes, ao lado da cantora Wanessa Camargo, da dupla Pedro e Thiago e do trio KLB. “Não consegui dar uma cara para o meu trabalho. Afinal, era obrigado a cantar o que eles queriam. Isso me incomodava muito”, queixa-se Fael.

Por conta disso, o novo diretor do Fama, Boninho, propôs mudanças no formato. A partir de agora, a escolha do repertório fica a critério do próprio candidato. Além disso, a academia passa a receber visitas esporádicas de profissionais da indústria fonográfica, como a cantora Wanderléa e o produtor Nelson Motta, que dão conselhos aos participantes. Tido como “descobridor” de Marisa Monte e Lulu Santos, Nelson elogia o atual “cast” do Fama, que considera o mais heterogêneo, mas lamenta a falta de um trabalho mais autoral dentro da academia. “Composição é um trabalho solitário que demanda tempo. Não teria graça mostrar os garotos ali trancados escrevendo o tempo todo…”, brinca.

A voz do povo é a voz de Deus?

O jornalista Décio Piccinini e a atriz Elke Maravilha são apenas alguns dos muitos profissionais que ficaram famosos como jurados de programas de calouros. Outros tantos, como Pedro de Lara e Araci de Almeida, também fizeram história. Na terceira edição do Fama, Boninho resolveu instituir um 0300 para o público escolher os candidatos que devem ou não permanecer na academia.

Para Raul Gil, a opinião do público não é tão gabaritada assim. Pelo menos, não tanto quanto a de um José Messias, crítico musical que ele foi buscar nos antigos programas de calouros de Flávio Cavalcanti, na extinta Tupi. “Mesmo assim, o júri, de vez em quando, comete injustiças. Quando a gente reprova um candidato mais carismático, o público liga para reclamar”, conta o apresentador.

O autor do livro A Era dos Festivais, Zuza Homem de Mello, concorda com Raul Gil quando ele diz que júri comete eventuais injustiças. Principalmente, ressalva, quando se deixa levar pelo gosto popular. Foi assim em 1967, no II Festival Internacional da Canção, quando o júri votou em Margarida, de Gutemberg Guarabyra, e não em Travessia, de Milton Nascimento. “O tempo se encarregou de mostrar que o júri se equivocou ao dar ouvidos ao público”, enfatiza.

Ganhador do II Festival da MPB, de 1966, com a música Disparada, Jair Rodrigues elogia a iniciativa de programas que se propõem a lançar novos artistas. Mas faz um alerta: há de se preparar melhor os candidatos. “Pois da mesma forma como eles constroem, eles destroem. Um artista de verdade não é feito do dia para a noite”, garante.

O velho e bom show de calouros

De olho no filão, Sílvio Santos decidiu ressuscitar o extinto Show de Calouros, que apresentou por mais de 20 anos. Rebatizado de Gente que Brilha, o programa recebe toda sorte de candidatos: aspirantes a modelo, autores de paródia, transformistas… “É como se aquele que está na tevê tentando a sorte representasse os que estão em casa”, tenta explicar Décio Piccinini, que já “julgou” artistas como Emílio Santiago, Christian e Luís Américo. Pelo crivo de Elke Maravilha, outra “jurada profissional”, passaram também Fábio Jr. Joana e Alcione. “Tem de ter a brincadeira, é claro, como o Chacrinha fazia, mas não podemos esquecer dos talentosos de fato”, ressalta ela.

Na verdade, importa muito o talento de quem monta a estratégia de marketing. O formato do grupo Rouge é reprodução de um esquema criado pelo grupo Sony que já havia feito sucesso na Espanha. No Brasil, o grupo foi montado no programa Popstar, do SBT, e o primeiro álbum vendeu 1,3 milhão de cópias e a música Ragatanga foi uma das mais executadas. Não por acaso, a produtora argentina RGB já promoveu uma segunda seleção, só de meninos. Em menos de um mês, o Br’Oz já tinha vendido 300 mil cópias. “Sempre há formas de se afinar a voz num estúdio, mas eu queria emoção de verdade. Porque emoção só se encontra em artistas de verdade”, valoriza Rick Bonadio, jurado do Popstar e produtor de Mamonas Assassinas, Charlie Brown Jr. e CPM 22.

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