A história pode soar banal demais – as aventuras de um operador de fotocopiadora numa papelaria do subúrbio de Porto Alegre. Mas o gaúcho Jorge Furtado, que assina direção e roteiro de O Homem que Copiava, a melhor estréia de hoje nos cinemas, transforma esse argumento aparentemente frágil num filme complexo, criativo e inusitado.

Furtado põe uma pulga atrás da orelha da platéia logo na primeira seqüência: o operador da máquina, André (Lázaro Ramos), aparece no caixa de um supermercado, tendo que deixar de levar alguns produtos, para que a conta não ultrapasse os pouco mais de 11 reais que tem no bolso. Em seguida, dirige-se a um terreno baldio, acende um fósforo, e bota fogo num grande monte de notas de R$ 50. Será apenas a primeira vez que você será surpreendido pela trama.

Todo o filme (da estética ao roteiro, da direção de arte à composição dos personagens) gira em torno da idéia da fragmentação do conhecimento, personificada em André, que se distrai lendo pedaços dos livros e documentos que reproduz. “Talvez ele seja emblemático de uma geração, que também é a minha, de pessoas que sabem um pouco sobre tudo e não sabem muito sobre nada, uma tendência que se acentuou com o controle remoto e a Internet. O André relaciona essas informações da forma mais estranha… é um garoto que fala pouco, mas fica pensando muitas coisas e tem um mundo interior muito complexo”, define Furtado, revelando que o personagem foi inspirado num rapaz que trabalha na sua produtora, a Casa de Cinema de Porto Alegre. “Ele se interessa por tudo, mas não muito.”

O cineasta conta que a questão inicial foi “o que pensa uma pessoa que não precisa pensar no trabalho, mas tem chance de ler?”. Com a cabeça livre durante o expediente, André – que gosta de desenhar e sonha em ganhar dinheiro – deixa a imaginação voar, enquanto utiliza as cópias imperfeitas para fazer colagens, que vai grudando nas paredes do seu quarto.

O próprio filme adota o conceito da colagem, seja no gênero (comédia, drama, crônica, romance, aventura e tragédia sobrepostos) na linguagem, que mistura filme com animação, ou na própria dinâmica, sem um tempo narrativo definido. “A história anda aos pulos, em várias direções, a única condução é a lógica particular do personagem”, explica Furtado.

Rotina

A rotina de André é igual ao funcionamento automático da máquina de xerox: ir ao trabalho, fazer cópias, voltar, desenhar no quarto enquanto a mãe vê novela, dar-lhe boa noite, zappear na TV e espionar a vizinhança com um binóculo – particularmente a vizinha Sílvia (Leandra Leal), por quem passa a nutrir um amor platônico. Sua imaginação, ao contrário, é um turbilhão de histórias, cenas, sonhos e cenários.

Determinado a conhecer sua amada, ele a segue até o trabalho, e descobre que ela é balconista numa pequena loja de roupas. Para puxar assunto, resolve comprar um “chambre” (robe) de chenile para a mãe, que custa 38 reais. Conseguir esse dinheiro passa a ser o seu projeto de vida.

E como ele faz isso? Usa a fotocopiadora para reproduzir dinheiro, ganha na loteria, assalta um banco, ludibria um traficante ou todas as anteriores? Tudo isso para fugir com Sílvia, com a ajuda da estonteante Marinês (Luana Piovani), sua colega na papelaria, e do impagável Cardoso (Pedro Cardoso), um vendedor de quinquilharias louco por Marinês. “O mais engraçado é que eles fazem mil planos e todos dão certo”, observa Furtado. “Não tem o menor cabimento, é uma fantasia total. Os personagens são transgressores, mas são do bem, e eu os defendo no roteiro”, confessa. Não, Furtado. Você defende o roteiro. E prova que não é preciso pirotecnia ou violência para fazer um excelente filme brasileiro.