Jorge Rodrigues Jorge/Carta Z Notícias

Jornalista ficou três anos e sete meses atuando no exterior.

continua após a publicidade

Foi com alegria que Caco Barcellos recebeu a notícia de que seria correspondente da Globo em Londres. Na emissora desde 1985, quando começou como repórter do Jornal Nacional, julgou que estava na hora de sair do País e estudar a relação economia/violência em outras partes do mundo. Nos três anos e sete meses em que atuou no exterior, de janeiro de 2002 a agosto de 2005, teve a chance de cobrir fatos explosivos, como os atentados aos trens de Madri em 2004 e ao metrô de Londres em 2005. "Desigualdade social não é privilégio do Brasil. Há barris de pólvora prestes a explodir em várias partes do mundo", denuncia.

De volta ao Brasil, Caco garante não ser do tipo que traça objetivos a longo prazo. Se depender dele, continua fazendo o que mais gosta em 2006: reportagens investigativas. Como as que resultaram nos livros Rota 66, de 1992, que denunciava os abusos cometidos pela polícia especial de São Paulo, e Abusado, de 2003, sobre o poder do narcotráfico na favela carioca Dona Marta. Uma de suas próximas pautas, inclusive, é sobre a tolerância moral dos brasileiros. "As pessoas já não sentem mais vergonha diante de certas imoralidades, como explorar os outros, desrespeitar o trabalho alheio e não pagar impostos", enumera.

Quais foram os momentos mais marcantes da experiência no exterior?

Um deles, sem dúvida, foi a convivência com jovens muçulmanos na França. Eles me ajudaram a entender melhor o seu processo de violência. Tive acesso a grupos importantes e cheguei a acompanhar uma ação deles na Espanha. Os atentados aos trens da Espanha e ao metrô de Londres estão diretamente associados à luta dos muçulmanos contra o Ocidente. Também gostei de ter acompanhado a ofensiva de Israel aos territórios ocupados da Palestina.

Você chegou a passar por algum apuro em terras estrangeiras?

Não considero que tenha corrido riscos, apenas senti forte rejeição ao meu trabalho. Certa vez, fui quase surrado na periferia de Paris porque queria gravar uma matéria com eles e não consegui uma boa intermediação. Engana-se quem pensa que a luta muçulmana hoje é apenas contra os Estados Unidos e a Grã-Bretanha. Não, a guerra deles é mundial. O inimigo deles é o Ocidente. E o exército ocidental, é bom que se diga, não é formado apenas por soldados, mas por jornalistas também. Eles consideram nós, jornalistas, como membros desse exército inimigo.

Você faria um paralelo entre os jovens muçulmanos da periferia de Paris e os jovens traficantes das favelas cariocas?

continua após a publicidade

O que eu vejo em comum é uma grande revolta e indignação como conseqüência da desigualdade social. Há algumas semelhanças, sim, como a insatisfação dos jovens e adolescentes, que acaba criando em comunidades mais carentes lideranças muito radicais. Em diversas partes do mundo, há sempre barris de pólvora prestes a explodir. Mas eu teria de estudar mais a fundo a realidade deles para responder melhor à sua pergunta.

Seu último livro, Abusado, vendeu 100 mil exemplares. Correspondeu às expectativas?

Eu acho que foi além. Antes de começar a escrevê-lo, tive muito medo da reação da sociedade. Tive medo de ser mal-interpretado. Poderiam me acusar de uma suposta glamourização do crime. Na época, umas poucas pessoas chegaram a dizer que era um absurdo dar voz a criminosos. Mas, felizmente, ele vendeu bem. Todo mundo, direta ou indiretamente, está ligado ao tráfico de drogas. Fala-se muito, mas conhece-se pouco do cotidiano dos traficantes.

continua após a publicidade

Por isso achei esse livro tão necessário.

E o próximo? Já tem idéia sobre o que vai falar?

Já, mas, por uma questão rigorosa, não costumo falar nem para a minha mãe… Você sabe: como eu trabalho com investigação, se as pessoas ficam sabendo, alguma coisa pode dar errado ou interferir no desenvolvimento da investigação.