Ricardo Boechat:
?Fechem os olhos…?

Ricardo Boechat estréia nesta segunda-feira na Band com uma única expectativa. Em duas aparições diárias – uma no Jornal da Band e outra no Jornal da Noite -, ele não quer que ninguém espere uma reedição do trabalho desenvolvido na Globo, onde atuou por seis anos como colunista do Bom Dia Brasil. “Gostaria que as pessoas fechassem os olhos e me julgassem pela notícia. Depois, podem ir abrindo os olhos devagarinho”, brinca, reproduzindo o gesto que utiliza como tática para assistir a filmes de terror.

A ansiedade tem justificativas. Desde que perdeu seu espaço diário no jornal O Globo e se transferiu para o Jornal do Brasil, Boechat recebeu diversos e-mails de leitores reclamando que sua coluna “não é mais a mesma”. “E não é mesmo. A plataforma de apuração diminui, a visibilidade diminui, muitas fontes que tinha por estar em O Globo não tenho mais”, explica. Na tevê, ele já passou também pelo Jornal do SBT e sabe que o processo não é diferente. Mesmo assim, não esconde a satisfação com o que chama de “respeitabilidade” do jornalismo da Band. “Posso não estar num Maracanã, mas estou num belo Pacaembu, com uma equipe motivada para se impor cada vez mais aos concorrentes”, compara o jornalista, que vai atuar também como supervisor de conteúdo do jornal local da emissora no Rio de Janeiro.

P – Você acha que a tevê é um campo fértil para o colunismo?

R – Não tenho dúvidas disso, porque a tevê se identifica muito com a cultura da notícia do brasileiro, que garante a repercussão do colunismo: a notícia curta e exclusiva. Além disso, é um ótimo espaço para se impregnar esta notícia de um estilo próprio, porque valoriza a criação de “personagens”. É claro que, na frente das câmaras, o cara tem de ter empatia, tom de voz, visual. Se ele consegue unir isso a um bom trabalho de colunista, não há por que não dar certo.

P – Você se sente à vontade diante das câmaras?

R – Não sou um profissional de tevê. Como qualquer “estranho no ninho”, fico inseguro. Num jornal, em momento algum sou o centro das atenções. A tevê só trabalha com estrelas. Quem quer que esteja no ar num determinado momento, é o astro. Não é como um sofá na minha sala. É um monstrão cheio de luzes, um monte de gente me olhando, a angústia de saber que aquilo tem um tempo certo e que está sendo visto por não sei quantos milhões de pessoas, inclusive a minha mãe.

P – Como vai ficar sua rotina com o trabalho na Band?

R – Decidi me mudar para São Paulo porque seria muito complicado me deslocar diariamente para lá. Vou ficar “on-line” o dia inteiro com a equipe do JB, trabalhando direto da Band. Depois de sair do ar no Jornal da Band, fico em função do fechamento do JB, que é por volta das 21 h, 21:30 h, e depois entro no Jornal da Noite. Não muda muita coisa, porque o que tenho de fazer é ficar ao telefone apurando notícias, não importa se para o jornal ou a tevê.

P – Mas não surge nenhum conflito na hora de dividir entre os dois veículos o conteúdo apurado?

R – O conflito existe, mas se coloca menos vezes do que nós o tememos. Nos seis anos que passei no Bom Dia Brasil, aconteceu umas três vezes. Há coisas que são mais próprias para a tevê: notícias que mexem com interesses mais gerais, como consumidor, rotinas de vida, imposto de renda. Ao jornalismo impresso interessam mais os bastidores da política, a troca de ministros. É um público muito mais seletivo. Mas é claro que há notícias que interessam desesperadamente aos dois. Aí é preciso enfrentar caso a caso.

P – Como vai ser o trabalho de supervisão de conteúdo do Jornal do Rio?

R – Eles me pediram para dar palpites, sugerir pautas, injetar um pouco da minha experiência com “hard news”, caçar umas notícias exclusivas. Os jornais locais são geralmente uma sucessão narrativa dos acontecimentos do dia. A intenção é que o telespectador possa vibrar um pouco assistindo àquilo, que tenha duas ou três surpresas, coisas que tragam adrenalina para o jornal. É o que procuro para a coluna também.