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Cinema

Musical ‘Sunset Boulevard’ desvenda a Hollywood dos anos 50

  • Por Estadão Conteúdo

Noite de estreia do musical Sunset Boulevard, em Londres, 1993. Os autores Andrew Lloyd Webber (melodia) e Don Black (letra) aguardam ansiosos a saída de um convidado muito especial: o cineasta Billy Wilder, cujo filme de mesmo nome (no Brasil, Crepúsculo dos Deuses) é a base do espetáculo. “Ele chegou sorridente e nos disse: ‘Parabéns, ficou muito bom’. Em seguida, arrematou: ‘Vocês foram inteligentes, não mudaram uma linha do roteiro’. Ou seja, preservamos o trabalho dele”, diverte-se Black, em conversa por telefone com o Estado, desde Londres. “Mas seria burrice modificar, pois se trata de um raro roteiro brilhante.”

De fato, a partir de um dos mais perfeitos filmes já rodados em Hollywood, aquele que figura em qualquer lista dos dez melhores de todos os tempos, o musical Sunset Boulevard nasceu carregado de detalhes e cuidados para honrar o longa inspirador. Foi o que aconteceu em Londres e na Broadway, locais onde o protagonismo esteve nas mãos de estrelas como Glenn Close e Patti LuPone, e é o que se observa na versão que estreou em São Paulo, com Marisa Orth à frente.

São diversos os desafios para se contar a história de Norma Desmond, atriz de cinema que, naqueles anos 1950, já não desfruta mais da glória do cinema mudo, três décadas antes, quando reinava soberana. Encastelada em sua soturna mansão, no entanto, ela ainda acredita ser uma estrela, graças a seu mordomo Max (Daniel Boaventura), que não apenas escreve cartas de fãs imaginários como também elogia o roteiro que Norma escreveu, inspirado em Salomé e com o qual pretende retomar seu estrelato sob a direção de outro ícone das telas, o cineasta Cecil B. DeMille (1881-1959).

“É certamente o personagem mais difícil da minha carreira”, confessa Marisa que, embora conhecida como comediante, ostenta uma sólida carreira teatral em peças como Três Mulheres Altas e A Megera Domada. “Norma certamente enlouqueceu por causa do ostracismo, mas não deixa de ser refinada, inteligente. É tênue a linha que separa a fragilidade e a bravura nessa mulher.” E, além do desafio de interpretação, uma vez que Norma adotou como rotineiras as poses que a tornaram famosa no cinema, Marisa passou por uma intensa preparação vocal para atingir todas as notas criadas por Lloyd Webber que, aliás, aprovou a indicação da atriz brasileira, depois de vê-la cantando em um vídeo feito pela produção.

A única exigência feita por ele foi que Marisa consultasse a inglesa Fiona Grace McDougal, que também orientou Glenn Close para o mesmo papel na Broadway. “Ela trabalha há muitos anos com Webber e conversamos muito por Skype”, conta. “As notas são belíssimas, mas são quebradas, variando do grave ao agudo em uma mesma frase. Trabalhei muito com a partitura nas mãos.” Algo necessário pois, em Sunset Boulevard, muitos diálogos são cantados, o que exige do intérprete uma facilidade em falar cantado sem parecer falso.

É o caso de Daniel Boaventura, um dos melhores atores do teatro musical brasileiro, dono de uma poderosa voz de barítono. Para viver Max, ele precisou cultivar um lado sombrio. “É um personagem muito misterioso, o que me atraiu além do fato de ser um homem mais velho”, conta ele, que precisa usar uma prótese na cabeça para simular a calvície. “Max se revela aos poucos para o público e suas canções pedem uma razoável extensão vocal, de tonalidade mais lírica, escura, precisa.”

Sim, ao longo do espetáculo, o público descobre que Max foi casado com Norma, além de ter sido o diretor de seus principais filmes. Sua paixão por ela é tão inabalável que, nem mesmo quando Norma se apaixona pelo jovem Joe Gillis (Julio Assad), ele entra em desespero. Ao contrário, o fato da presença daquele roteirista fazer bem a Norma é suficiente para Max encobrir qualquer ciúme. Gillis é um escritor que, depois de uma fase promissora, afunda em dívidas por não conseguir trabalho. E, durante uma fuga de seus credores, ele busca refúgio na mansão de Norma, onde é confundido com um roteirista convocado por ela, para finalizar seu trabalhos sobre Salomé.

Gillis vê ali uma possibilidade de se recuperar financeiramente, mas não percebe que, aos poucos, perde o domínio sobre o próprio destino. “Pensei muito nos personagens de Tennessee Williams ao observar Normal, Max e Joe”, comenta Assad. “Afinal, são pessoas presas em si mesmas, como acontece nas peças do americano.” Como Gillis funciona como o narrador da trama, Assad praticamente não sai de cena, com várias canções para apresentar. “E a música de Webber é mais difícil do que parece, com muitos meandros e variações de tom. Por sorte, contamos com uma excelente versão brasileira.”

De fato, a tradução é obra de uma dupla experiente, Mariana Elisabetsky e Victor Mühlethaler, que já assinou junta outros trabalhos. “Mas essa foi certamente a mais desafiante, pela sua complexidade”, conta Mariana. “É verdade, mas podemos nos orgulhar porque, pela primeira vez, encontramos em português as palavras exatas, que formavam os versos com mesma quantidade de sílabas do original”, completa Victor.

Essa tarefa se torna obrigatória, na opinião de seu criador, o letrista Don Black. “Os diálogos são precisos, não há uma única sílaba desperdiçada”, conta ele, que trabalhou ao lado de Christopher Hampton. “O desafio de muitos musicais é descobrir exatamente quais momentos exigem músicas, e Sunset é único por causa da sensação cinematográfica da música – nunca há um momento de silêncio no palco. Tão logo se inspirava em um momento do filme, Lloyd Webber já começava a criar uma melodia.”

Daí ser acertada a decisão da produtora Stephanie Mayorkis (da Egg Entretenimento em parceria com a IMM) de manter a orquestra no palco. “Os músicos trabalham quase o tempo todo, pois as canções ajudam a narrar a história e, muitas vezes, em um ritmo frenético”, observa o regente Carlos Bauzys. E, para isso, o inglês Matt Kinley criou um espetacular cenário, de dois andares e com palco giratório, o que confere um ritmo cinematográfico ao espetáculo. “Essa foi nossa opção: a de que a trama fosse contada ao sabor da memória, da imaginação”, explica o diretor Fred Hanson, que assina talvez sua principal encenação – com projeções e variações no palco, ele consegue a proeza de tornar a produção brasileira melhor que a original, em vários aspectos.

SUNSET BOULEVARD

Teatro Santander. Av. Pres. Juscelino Kubitschek, 2.041. Tel.: 4003-1212. 5ª e 6ª, 21h. Sáb., 17h e 21h. Dom., 15h e 19h. R$ 75 / R$ 290

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