A pré-estreia de “Eu e Você”, o novo filme do cineasta italiano Bernardo Bertolucci, nesta sexta-feira, às 20 h, no Instituto Moreira Salles (IMS) do Rio, marca a retomada de um tema explorado no começo de sua carreira, quando dirigiu, aos 24 anos, seu segundo longa, “Antes da Revolução” (1964): a relação amorosa entre um jovem e uma mulher mais velha. A retrospectiva dedicado a Bertolucci pelo IMS, a partir desta sexta, traz oito longas seus, inclusive “La Luna” (1978), que trata igualmente de uma relação amorosa intergeracional – no caso, a paixão incestuosa de um garoto, viciado em heroína, por sua mãe, uma famosa cantora lírica. “La Luna” será exibido na próxima sexta, com debate entre Luiz Fernando Gallego, Giovanna Bartucci e Walter Boechat. No mesmo dia será lançada uma edição de luxo do filme em DVD, acompanhada por um ensaio do crítico norte-americano Jefferson Kline, da Universidade de Boston.

Baseado no delicado e assustadoramente realista livro de Niccolò Ammaniti, “Eu e Você”, recém-lançado pela Editora Bertrand Brasil, o filme é um elogio à juventude feito por um cineasta de 72 anos, hoje dirigindo em cadeira de rodas depois que uma hérnia de disco detonou sua coluna. Não é seu primeiro contato com o universo de adolescentes e jovens à procura de emancipação. Há uma ligação temática entre “Eu e Você” e o citado “La Luna”, além de Os “Sonhadores” (2003), mas também ressonâncias de “O Último Tango em Paris” (1972) – incluído na retrospectiva -, talvez o mais polêmico de seus filmes por causa da cena de sexo anal entre Marlon Brando, então com 48 anos, e a jovem Maria Schneider, de 20 anos.

Exibido fora de competição no último Festival de Cannes, “Eu e Você” não é exatamente “O Último Tango em Paris” revisto e ampliado, até mesmo porque a diferença de idade entre os personagens é menor. No caso do filme mais recente, é uma mulher de apenas 25 anos, Olivia (Tea Falco), envolvida com o consumo de drogas, que seduz o adolescente Lorenzo (Jacopo Olmi Antinori), de 14 anos, seu não menos problemático meio-irmão. Simulando uma excursão escolar aos Alpes italianos, Lorenzo se refugia no porão abandonado do prédio onde mora. Seu propósito é enganar a mãe superprotetora, Arianna (Sonia Bergamasco), para passar uma semana em meio aos pertences de uma condessa morta. Lorenzo é inteligente, solitário, sensível, mas não se relaciona bem com os outros. Cria, então, um mundo particular com seus discos e filmes até aparecer a meia-irmã rejeitada, Olívia, dependente de drogas.

O mundo dos excluídos sempre foi o de Bertolucci. A exemplo de Lorenzo, o cineasta foi um garoto prodígio que, incentivado pelo pai, o poeta e crítico Attilio Bertolucci, começou a escrever aos 15 anos, recebendo um prêmio importante já em sua estreia literária. O pai ajudou Pasolini a publicar seu primeiro livro. Como retribuição, Pasolini adotou o jovem Bertolucci e tomou-o como seu assistente em “Desajuste Social” (Accatone, 1961). Criou-se um vínculo que nem a morte de Pasolini, roteirista do primeiro filme de Bertolucci, “La Commare Seca” (1962), conseguiu romper. Ele foi seu pai e mentor. Não que o pai verdadeiro rejeitasse o papel, mas, assim como o garoto mimado de “La Luna”, Bernardo Bertolucci parecia disputar com ele a atenção da mãe, uma bela mulher.

Há ainda na retrospectiva exemplos do cinema político de Bertolucci, destacando-se seu terceiro longa, “Partner” (1968) e sua obra-prima na área, “O Conformista” (1970), história de um jovem da alta burguesia seduzido pelo fascismo. Épicos que tentam entender a cultura oriental, como “O Último Imperador” (1987) e “O Pequeno Buda” (1973), mostram um Bertolucci em namoro com as superproduções. Finalmente, há os dramas intimistas dos anos 1990, entre eles “O Céu Que Nos Protege” (1990), e “Assédio” (1998), todos na mostra. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.