A mostra promovida pela Cinemateca a partir de terça-feira homenageia um cineasta muito especial – Carlos Reichenbach, o Carlão, morto ano passado. A retrospectiva é bem completa e inclui do primeiro curta do diretor, “Esta Rua Tão Augusta” (1966), até o seu último longa-metragem, “Falsa Loura” (2008). Amplo panorama para a compreensão de um artista diferente, que sempre acreditou no cinema independente, aquele que trafega por fora do esquema industrial.

Carlão, como se sabe, filmou na chamada Boca do Lixo paulistana e lá dirigiu alguns dos seus melhores trabalhos. Em um prodígio de contorcionismo criativo, conseguia colocar reflexões políticas em meio a pornochanchadas, e assim viabilizava suas produções, fazendo um cinema de guerrilha e de contrabando. Quer dizer, entre um nu feminino e outro atravessava a alfândega mental dos produtores escondendo ideias de alta voltagem, que não estavam nos planos nem da turma que investia dinheiro dos filmes, bastante pragmática, nem da censura.

Basta ver filmes como “Lilian M: Relatório Confidencial”, “Amor: Palavra Prostituta” ou “Sede de Amar” para se convencer de como Carlão conseguia unir o cinema autoral às exigências das produções de grande público da época. Carlão era diferente também na formação cinematográfica. Num ambiente às vezes cheio de originalidade porém um tanto tosco, trazia também para a Boca toda a sorte de influências cozinhadas em seu universo de cinéfilo militante – Samuel Fuller, Nicholas Ray, Jean-Luc Godard, e toda uma vertente do cinema japonês que ele cultivava nas antigas salas do bairro da Liberdade. Chegou a ser crítico do diário japonês São Paulo Shinbum, alternando a coluna com amigos, como Jairo Ferreira.

A mostra relembra também um Reichenbach mais light, por exemplo naquele que, para muitos, é seu melhor filme – “Anjos do Arrabalde”, sobre a vida das professoras suburbanas, com Clarisse Abujamra e Bety Faria. Os dramas e as pequenas alegrias das mulheres, contados em tom menor, sensível e delicado. Eis aí um Carlão, àquela época (1986) inesperado.

Mas talvez o melhor Carlão seja mesmo aquele em que seu radicalismo poético, de veio anarquista, se manifesta de maneira mais clara. Por exemplo em “Filme Demência” (1985), diálogo com “Fausto”, de Goethe, através da história de um burguês que perde sua fábrica, arruma uma arma e sai a esmo pela cidade em busca de alguma redenção. Outro exemplo é “Alma Corsária”, vencedor do Festival de Brasília de 1993. Dois amigos escrevem um livro de poesia a quatro mãos e o lançam num estabelecimento chamado Pastelaria Espiritual. Centro de São Paulo, aquela fauna noturna variada e excêntrica, pela qual Carlão nutria especial ternura. São esses elementos que dão vida a uma história permeada de política, mas com viés libertário. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

CARLOS REICHENBACH

Cinemateca (Largo Sen. Raul Cardoso, 207). Tel. (011) 3512-6111. R$ 8. Abertura terça, 20h30. Até 17/2. www.cinemateca.gov.br