Aos 73 anos, Hilda Hilst perde a vida
por infecção decorrente de queda.

Rio de Janeiro – Morreu, na madrugada de ontem, a escritora Hilda Hilst, aos 73 anos. Ela estava internada desde o dia 2 de janeiro no Hospital das Clínicas da Universidade de Campinas, na Unicamp. A internação foi conseqüência de uma queda, na qual a autora quebrou a perna. Mas houve complicações hospitalares, que evoluíram para uma infecção, e Hilda acabou não resistindo.

Hilda Hilst escreveu 41 livros, e carregava o rótulo de “obscena”, “provocadora”, “pornográfica” e “maldita”, por causa da linguagem libertina que usava em suas poesias e crônicas desde a década de 60. Suas obras mais conhecidas são Com os Meus Olhos de Cão, A Obscena Senhora D e Júbilo, Memória, Noviciado da Paixão.

No seu site na internet (www.hildahilst.cjb.net), ela aparece fazendo um gesto obsceno e dizendo – “o escritor e seus múltiplos vêm vos dizer adeus; tentou na palavra o extremo-tudo e esboçou-se santo, prostituto e corifeu”. “Meu charme maior foi sempre ter sido livre. Para viver e escrever”, disse certa vez. Sua obra completa começou a ser reeditada pela editora Globo em 2002. Este ano, serão relançadas outras obras.

Hilda Hilst nasceu em Jaú, no interior de São Paulo, e morava há 40 anos em Campinas, isolada na chácara Casa do Sol (apenas com suas dezenas de cachorros e gatos), onde recebia visita de amigos, e continuou escrevendo até 2000. Avessa a entrevistas, recebeu a reportagem do jornal O Globo em 2002, e contou por que havia parado de escrever: “Porque eu disse tudo o que tinha a dizer. Não tenho mais vontade de escrever, escrevo muito pouco atualmente, às vezes passam semanas e eu escrevo só uma linha.”

Seu arquivo pessoal foi comprado pelo Centro de Documentação Alexandre Eulálio, Instituto de Estudos de Linguagem (IEL) Unicamp, em 1995, estando aberto a pesquisadores do mundo inteiro. Alguns de seus textos foram traduzidos para o francês, inglês, italiano e alemão. Em março de 1997, Com os Meus Olhos de Cão e A Obscena Senhora D foram publicados pela famosa editora Gallimard, com tradução de Maryvonne Lapouge, o mesmo de Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa. Sobre sua obra, a autora nunca foi modesta: “Acho-a genial”, definiu.

Sexo, romances célebres e misticismo

Antonio Gonçalves Filho

São Paulo

– Escritora culta, traduzida em vários países, Hilda Hilst provocou polêmica ao desafiar o establishment acadêmico e crítico, publicando, no começo dos anos 80, uma série de livros pornográficos iniciada com A Obscena Senhora D. Ignorando a controvérsia sobre essa fase, Hilda Hilst disse “adeus à literatura séria” em 1990, justificando sua atitude como uma tentativa de se aproximar do grande público, que continuou ignorando sua obra, a despeito da medida radical, que provocou reações adversas. O editor da Brasiliense Caio Graco Prado, que já morreu, recusou-se a publicar livros dela.

Filha única do poeta, jornalista e fazendeiro Apolônio de Almeida Prado Hilst, Hilda foi criada longe do pai, separado da mãe Bedelcida Vaz Cardoso. As duas foram morar em Santos. O pai, esquizofrênico, foi internado várias vezes e morreu numa instituição para doentes mentais. Sua doença provocou impacto na adolescente de 16 anos, que escreveu sobre o reencontro entre os dois em Carta ao Pai, impressionada com sua perturbação, que o fez identificá-la com a figura da mulher. Estudante de Direito, muito bonita e avançada para os padrões da época (fim dos anos 40), Hilda Hilst nunca exerceu a profissão. Em contrapartida, namorou muito – o poeta Vinicius de Moraes, entre outros – e despertou paixões em celebridades como o ator americano Dean Martin. Ela já era uma poeta com alguns livros publicados (Presságio, de 1950, e Balada de Alzira, de 1951) quando se fez passar por jornalista para assediar seu ídolo, o ator Marlon Brando, então no auge da fama e juventude, décadas antes de O Poderoso Chefão e da decadência física.

Essa palavra, infelizmente, passou a fazer parte do vocabulário de Hilda Hilst quando ela se mudou para o sítio herdado da mãe. Influenciada, dizem, pelo escritor grego Nikos Kazantzakis (Zorba), que pregava o isolamento como forma de autoconhecimento, a escritora passaria os últimos anos longe dos seres humanos, mas cercada por muitos cães. Como o pintor Cézanne, foi para o campo à procura de uma resposta para questões metafísicas.

Em 1966, quando se mudou para a Casa do Sol, a 11 quilômetros de Campinas, ainda não tinha desenvolvido uma postura radical contra o casamento. Tanto que aceitou a imposição da mãe e casou-se com o escultor Dante Casarini, após dois anos de união extra-oficial.

Foi uma época produtiva, especialmente na área teatral, quando várias peças suas foram encenadas (O Visitante, O Rato no Muro e a premiada O Verdugo, entre elas).

Nos anos 70, Hilda começou a gravar, por meio de ondas radiofônicas, vozes que assegurava ser de pessoas mortas. Mística, dizia que um mago francês havia antecipado seu futuro.

Em 1980, divorciada, continuou a escrever peças na Casa do Sol, textos que eram montados nos teatros paulistanos sem atrair, exatamente, a atenção do grande público. Hilda era “cult”. Cansou dessa posição, tentou ser pornográfica, mas nem mesmo os editores estrangeiros pagavam seus direitos pelos livros “pornográficos”. Morreu devendo uma fortuna em imposto predial.