O olhar arguto e preciso de Graciliano Ramos sobre as mazelas brasileiras inspirou a conferência de abertura da 11.ª Festa Literária Internacional de Paraty, a Flip, proferida por Milton Hatoum, ontem,3, à noite, na cidade fluminense. Em discurso que durou cerca de uma hora, o cronista do Caderno 2 do jornal “O Estado de S.Paulo” enumerou os fatos pessoais do escritor alagoano que foram decisivos para a confecção de sua obra – e que também explicam muitos dos atuais problemas nacionais.

“Graciliano encontrou um equilíbrio muito forte entre o social, o político e o psicológico”, disse o autor para uma plateia que praticamente lotou a Tenda dos Autores, repetindo o que afirmara à reportagem à tarde, quando tratou de seu mais recente livro, Um Solitário À Espreita (Companhia das Letras), uma seleção de crônicas, a maioria publicada no Caderno 2. Nessa conversa exclusiva, ele notou também a familiaridade do texto de Graciliano Ramos com os movimentos sociais que vêm chacoalhando o País. “A forma com que ele trabalhava a linguagem ao tratar das grandes questões da realidade brasileira, promovendo a dissolução entre o subjetivo e o objetivo, sempre me fascinou muito”, disse.

Hatoum voltou a lembrar das atitudes do Graciliano político, ou seja, do período em que atuou de forma irrepreensível como prefeito de Palmeira dos Índios, no fim da década de 1920. “Ele sempre manteve uma conduta exemplar como funcionário do governo e, como autor, mostrava ainda como a ética está intimamente associada à estética.”

Como bom cronista, Hatoum sai às ruas em busca de histórias inspiradas. Gosta particularmente de frequentar o centro de São Paulo e, em um determinado dia, acompanhou a intensa movimentação que acontece na Estação da Luz por volta das 18 horas. “Basta ver aquela massa se espremendo, lutando por um lugar no trem, no metrô ou no ônibus, para se entender um pouco a origem dessas revoltas sociais”, observa.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.