Letieres Leite lança 1º disco de seu quinteto e fala do trabalho com Maria
Bethânia nos novos projetos da cantora

Um dos mais importantes arranjadores da música brasileira, o baiano Letieres Leite, aos 59 anos, trabalha com reconhecidas dedicação e paixão nos bastidores. Como fez no musical Elza, assinando novos arranjos para sucessos na voz da cantora Elza Soares, ou como diretor musical e arranjador do novo disco de Maria Bethânia, dedicado à Mangueira, e também do elogiado show da cantora, o Claros Breus, que estreou no Rio, no início deste mês. Isso para assinalar alguns projetos mais recentes. Mas Letieres também ganhou notoriedade nos palcos, à frente de sua big band ao sabor baiano, com sopros e percussão, a Orkestra Rumpilezz.

Maestro, músico e compositor, ele traz em sua formação a importância de se estudar, se aprofundar, experimentar. E a fundação do Letieres Leite Quinteto veio nessa esteira há dez anos. Uma década depois, Letieres (sax e flautas), ao lado de Luizinho do Jêje (percussões), Ldson Galter (contrabaixo), Marcelo Galter (teclados) e Tito Oliveira (bateria), lança o primeiro disco do quinteto, O Enigma Lexeu, pela nova gravadora Rocinante, já disponível nas plataformas digitais – e que deve ganhar versão em vinil. É um belo álbum instrumental, com sete faixas, que traz textualmente a música percussiva de matriz africana em uma formação clássica do jazz.

“O quinteto surge como um contraponto à Rumpilezz. O quinteto era um grupo de estudo, mas eu sentia necessidade de mostrar para mim, para as pessoas que estavam perto de mim, e consequentemente para os alunos que era possível manter aquele conceito de orquestra num grupo pequeno”, conta Letieres, em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo. “Na realidade, o quinteto é uma provocação. É uma forma sintética do que acontecia na formação orquestral. É possível, sim, manter aqueles conceitos da Rumpilezz num grupo menor. Se a gente treinar os músicos com muito rigor, no caso o pianista, o baixista, o baterista. Eles foram alunos meus também, com exceção do percussionista, o Luizinho do Jêje, que, ao contrário de aluno, é nosso mestre.”

O maestro conta que procura fazer formações clássicas. “Todas essas formações existem dentro do universo do jazz.” Na Rumpilezz, são 14 músicos de sopro e 5 de percussão. Já o quinteto tem o trio clássico – de baixo, bateria e piano -, sopros, e, como ele próprio diz, uma novidade, que é a percussão. “É a única coisa que sai da norma.”

O UNIVERSO DE LETIERES

Para o maestro Letieres Leite, suas duas crias, a Orkestra Rumpilezz e o Letieres Leite Quinteto, vêm do mesmo barro: o Universo Percussivo Baiano, que ele chama de UPB. A gênese, então, estaria toda aí? “A gênese que você coloca para mim, eu chamo de material composicional, ou seja, onde me inspiro para fazer as músicas, o universo percussivo baiano para ambos os trabalhos”, responde o arranjador. O que remete essa história para antes da formação oficial de sua premiada Rumpilezz, em 2006.

“A orquestra é mais antiga, começou nos anos 1980, as partituras, as músicas. Eu ainda era estudante de música na Europa. Aí voltei ao Brasil. Eu estava muito dedicado a estudar composição e percebi: Por que não fazer composição a partir dos elementos da cidade onde fui criado?. Dessa informação que eu já tinha de forma tão espontânea, que é a questão do universo afro-baiano. Eu já tinha isso, inclusive pela experiência que tive de estudar numa escola pública e tocar numa orquestra afro-brasileira dentro dela. Isso no começo do anos 70”, conta.

“Então, quando me tornei músico profissional tardiamente, depois de 20 anos de idade – eu era artista plástico -, comecei a tocar e aí essa formação já era natural minha. Como Salvador tem uma oferta grande de presença percussiva, esse era o material sobre o qual eu queria me debruçar como compositor, isso já estudando na Europa. Então, o início da orquestra é anos 80, alinhavando a roupa, muitas das composições foram iniciadas nesse período e terminadas depois”, ele continua.

Assim, o Letieres Leite Quinteto surge como mais um passo dentro de seu aprofundamento de pesquisas, de experiências. De grupo de estudo, tornou-se um quinteto de fato. E iniciou sua trajetória de apresentações. E por que lançar o primeiro disco, O Enigma Lexeu, só agora, depois de dez anos? A resposta do arranjador é simples: encontrou um estúdio ideal. “Nunca me senti na obrigação de ter que gravar o trabalho, sinto um prazer grande em tocar as coisas. A gravação, para mim, é uma consequência do que deveria acontecer de uma maneira muito espontânea. Como já trabalho há muito tempo na indústria, que tem aquelas configurações que tem de gravar o disco anualmente ou a cada dois anos, no meu trabalho autoral, procuro deixar bem relaxado e só acontecer quando tiver de acontecer”, diz. “E são várias forças que fazem com que aconteça. São circunstâncias também do local, do tipo de gravação, se vale a pena gravar. Têm de aparecer as condições ideais, um estúdio, com gravação 100% analógica, do jeito que eu gravava no início da minha carreira, no começo dos anos 80. Gravamos direto em fita, depois você passa para digital, mas aí você já captou todos os harmônicos…”

Sobre a rica sonoridade de O Enigma Lexeu, que traz a marca de Letieres, o maestro diz que o jazz e a música de matriz africana não dialogam, mas, sim, travam um monólogo. “Como o jazz é diferente do afro-brasileiro? São filhos da mesma mãe, vieram do mesmo lugar”, observa. “A grande maioria da música popular é oriunda dos mesmos princípios. Então, quando eu digo princípios metodológicos científicos, vale para o jazz, para o afro-baiano, para a Rumpilezz, para a música do Michael Jackson, para o hip-hop, para a salsa, para o merengue, para o tango. O que eu fiz foi me dedicar durante quase 30 anos a estudar que rigor é esse. Por que baião é baião? A música de Luiz Gonzaga parece que cai do céu, a pessoa não conecta com música negra. É música de origem negra.”

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.