Fordlândia, a cidade fantasma criada em 1927 pelo magnata da indústria automobilística Henry Ford (1863-1947) à margens do Rio Tapajós, no Pará, está na ordem do dia. Presente na série de fotografias documentais A Última Aventura, da artista gaúcha Romy Pocztaruk, na 31.ª Bienal de São Paulo, como parte de sua investigação sobre as ruínas da Transamazônica, a cidade atraiu igualmente a artista inglesa, radicada no México, Melanie Smith, de 49 anos, que abriu no dia 18 sua individual Fordlândia, na Galeria Nara Roesler. São pinturas, colagens e um vídeo que traduzem suas impressões do megalômano projeto, fadado ao mais absoluto fracasso. Abandonada pelo neto de Ford, a cidade foi tomada pelo mato e virou uma ruína em plena floresta amazônica. Assim está desde 1945.

No fim da guerra, a indústria já era capaz de produzir pneus com derivados de petróleo, colocando por terra o projeto de Ford, de usar o látex das seringueiras para o mesmo fim. Sua empresa teve de absorver um prejuízo superior aos US$ 20 milhões investidos e resgatar seus rudes gerentes, perseguidos por trabalhadores locais, cansados de comer hambúrgueres, do tratamento truculento dos executivos e dos mosquitos. As quase 2 milhões de seringueiras plantadas no município de Aveiro se encarregaram de invadir o utópico projeto.

Melanie Smith não é marinheira de primeira viagem em matéria de ruínas. Ela conta que ouviu falar de Fordlândia pela primeira vez há três anos, quando participou da oitava edição da Bienal do Mercosul, em Porto Alegre, após representar o México na Bienal de Veneza naquele mesmo ano – ela mora na Cidade do México desde 1989. Um ano antes, Melanie realizou um filme, Xilitla (2010), justamente sobre outro projeto abortado, o do jardim edênico Las Pozas e seu surrealista castelo, ambos construídos na pequena cidade mexicana do título em 1949 pelo exótico artista e colecionador de arte inglês Edward James.

O que interessa à artista inglesa, em ambos os casos, é o efeito da entropia – tanto artística como na paisagem cultural de ambas as microcidades, Fordlândia e Xilitla, que escaparam da industrialização graças à natureza hostil. Leitora de Joseph Conrad, ela viu no coração das trevas da floresta amazônica e nos jardins subtropicais das montanhas de Xilitla um cenário perfeito para ambientar sua parábola sobre o fiasco da modernidade diante da natureza selvagem. Os dois projetos são o que os prefaciadores do livro Fordlândia, Sjarel Ex e Anthony Spira, chamam de “uma história readymade”, ou seja, uma narrativa já pronta que permite vários níveis de interpretação, como os livros de Conrad (Nostromo, entre outros).

Mas, ao contrário de Conrad, Melanie não vê a floresta como uma metáfora do terror. Tanto em Xilitla como em Fordlândia, o que atrai é a montagem um tanto descontínua de belas imagens para construir uma fábula sobre o delírio da colonização e de uma vida idealizada. Nesse sentido, diz ela, sua obra tem algo de política, como os livros de Conrad. “Ford pensava em construir uma civilização industrial num lugar inóspito e Edward James pretendia criar uma paisagem pastoral em meio à natureza selvagem, e eu rompo com a hierarquia ao equiparar bichos, homens e a mata selvagem”, explica a artista.

Como figura simbólica da agressiva natureza local, ela elegeu um jacaré, que desperta de seu sono atacado pela agressiva luz dos refletores batendo na água do rio. Formas semelhantes migram da ficção para a realidade no vídeo em que as manchas da pele de uma onça se mesclam com a da camiseta de uma mulher com as mesmas pintas estampadas. Melanie evoca a figura de um dos expoentes da land art, Robert Smithson (1938-1973), para justificar sua adesão aos princípios estéticos do artista norte-americano. Ele dizia que os melhores lugares para se fazer ‘land art’ são aqueles abandonados pela indústria, urbanizados de forma rudimentar ou engolidos pela natureza.

Melanie até usou uma obra paradigmática de Smithson, Spiral Jetty, criada em 1970, como modelo para seu filme Spiral City (2002), em que ela registra a Cidade do México de um helicóptero num giro em espiral. A relação dialética entre a paisagem física e sua reinterpretação artística invariavelmente conduz Melanie a usar cores saturadas que reagem à tradição do “pitoresco” nos séculos 18 e 19. A inglesa não é mais um daqueles pintores viajantes a serviço da reinvenção exótica da paisagem local. “A bem da verdade, minha influência maior quando faço esses filmes não é o cinema, mas a literatura”, admite Melanie, cujo tema principal de sua obra é a desorientação, o deslocamento. Em tempo: ela anuncia que, apesar de ter se integrado à comunidade artística mexicana, anda com nostalgia da Inglaterra após sua exposição na Tate Modern, curada pela historiadora de arte Dawn Ades, responsável pela primeira retrospectiva de Francis Bacon após sua morte. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.