Cidade do Vaticano – O ator e diretor australiano Mel Gibson negou às autoridades do Vaticano a chance de assistir, antes da estréia, a seu novo filme, The Passion of Christ, no qual relata as últimas horas da vida de Jesus. O Vaticano havia pedido na semana passada a autorização da produtora americana Icon Productions, da qual Gibson é sócio, para que um grupo de cardeais e especialistas em cristologia assistisse a portas fechadas ao filme antes de sua estréia, durante um festival de cinema espiritual.

“As negociações com Gibson durararam até ontem, quando os produtores nos explicaram que o filme ainda não estava pronto e que o diretor estava na sala de edição para tentar suavizar as cenas mais violentas”, explicou Andrea Piersanti, presidente do Instituto Italiano para o Cinema e o Espetáculo e um dos organizadores do festival.

Os encarregados do Conselho Pontifício para a Cultura e do Conselho Pontifício para as Comunicações Sociais, patrocinadores do evento, queriam ver o filme durante seminário sobre o tema Cristo e o Cinema, organizado pela universidade Urbaniana.

Rodado na Itália, o filme de Gibson, que é católico conservador, foi muito criticado por meios judeus, que rejeitam as causações de deicídio feitas no filme. Gibson retomou, assim, a posição oficial da Igreja antes do Concílio Vaticano II, celebrado entre 1962 e 1965, que acabou condenando essa avaliação da história.

O filme, que estreará durante a Semana Santa, foi apresentado nos Estados Unidos em novembro passado para um grupo de pessoas de várias religiões, que manifestaram opiniões desencontradas, em geral negativas, sobre a fita. O Vaticano reagiu com cautela e advertiu que não queria julgar o filme, e lembrou que as autoridades da Santa Sé continuam interessadas nos artistas que abordam o tema da vida de Jesus, como aconteceu com Pier Paolo Pasolini e seu controvertido O Evangelho Segundo São Mateus.

The Passion of Christ é o segundo filme dirigido por Mel Gibson, depois do sucesso de bilheterias Coração Valente (1995). Em colaboração com autoridades italianas, o Vaticano celebrará, entre amanhã e 10 de dezembro, a sétima edição do Festival de Cinema Espiritual do Terceiro Milênio. O festival será inaugurado com o filme Suplement, de Krzystof Zanussi, diretor de origem polonesa e ligado ao Papa João Paulo II.