Fernando Meirelles.

Com o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante na prateleira, Rachel Weisz deixa definitivamente de ser a "garota do filme da Múmia" para se tornar uma atriz do primeiro time de Hollywood. Nas entrevistas que concedeu logo após receber o maior prêmio da indústria cinematográfica por sua bela atuação em O jardineiro fiel, na noite de domingo passado (5), a britânica dizia que estava feliz com o trabalho de Fernando Meirelles porque ele havia mantido o compromisso com o livro de John Le Carré (no qual o filme é baseado) e com a realidade, mostrando ao mundo que a situação da África é muito séria.

Em entrevista concedida em sua casa, na Granja Viana, zona sul da capital paulista, onde ele assistiu à premiação, o cineasta mostrou que também está muito satisfeito por ter escolhido a atriz. O brasileiro chegou a recusar estrelas como Nicole Kidman para o papel da militante que é morta ao investigar o uso de cobaias humanas por uma indústria farmacêutica na África.

Meirelles, que havia declarado que não viajar a Los Angeles seria seu prêmio de consolação por não ter sido indicado uma segunda vez a Melhor Diretor, contou que o filme tomaria inicialmente seis meses de sua vida, mas cresceu tanto que consumiu quase dois anos e passou de um projeto discreto a alvo de críticas positivas e indicações a prêmios importantes como o "Bafta" (o "Oscar" inglês), o "Globo de Ouro" e o próprio "Oscar".

Você já disse que este filme está contribuindo para dar uma guinada na carreira de Rachel. Isso antes mesmo de ela receber o Oscar, pois todos os seus outros prêmios já confirmavam esta mudança. E agora? Depois do bebê nascer (ela está grávida de sete meses), você crê que os novos papéis que surgirão para ela serão mais consistentes?
Fernando Meirelles – Enquanto a Rachel tem seu filho (que nasce em maio), ela estará também na tela em Cannes onde seu marido Daren Aronovsky (de Réquiem para um Sonho) deve estrear seu filme The Fountain, tendo ela como protagonista. Na verdade, estou apenas chutando que ele seja selecionado. Mas pelo que ele me contou sobre o filme, seria tolice de Cannes não inclui-lo. A Rachel tem sido convidada para ler roteiros de grandes figurões, mas não posso dizer quem são, nem ela fala sobre isso com a imprensa.

Rachel comentou que literalmente correu atrás de você quando soube que você dirigiria O jardineiro, pois havia assistido o filme Cidade de Deus e ficado impressionada. Como foi este primeiro contato? Como você se decidiu por Rachel, depois de recusar atrizes famosas para o papel?
Fernando Meirelles – Ela foi a primeira atriz com quem falei. Tinha acabado de chegar em Londres, estava me instalando num apartamento com a família quando me ligaram para avisar que ela estava vindo de Los Angeles para falar comigo no dia seguinte. Era um dia de folga em sua filmagem de Constantine. Ela veio e levantou um monte de pontos interessantes sobre a personagem. A determinação dela me impressionou. No dia seguinte, vi um filme independente que ela havia feito, The Shape of Things, e percebi que ela era bem mais interessante do que ela mostrava em A Múmia. Escolhi Rachel no fim de uma rodada de conversas com outras atrizes.

Rachel já havia afirmado no "Globo de Ouro" e voltou a destacar a sua grande humanidade e sua capacidade de lidar com temas delicados. Como é ouvir essas considerações?
Fernando Meirelles – Nós nos demos muito bem mesmo. Existem muitos diretores "deusinhos" por aí, às vezes arrogantes e mandões. Ela pegou uns desses pela frente, então sempre dizia que me achava meio estranho, pois eu era meio normal demais para a profissão. Pode ser isso que ela queira dizer com "humanidade".

E sua opinião sobre a premiação? Os outros prêmios a que O Jardineiro concorria e não levou (Claire Simpson/Edição, e Jeffrey Caine/Roteiro Adaptado) e a surpresa de Crash?
Fernando Meirelles – Acho a montagem de O Jardineiro melhor do que a de Crash. No Bafta, Crash nem foi nomeado e O Jardineiro ganhou nesta categoria. Agora foi a vez deles. O filme tem roteiro e atores muito bons, e um tema absolutamente contemporâneo. É isso que encanta, mas não tem a elegância nem a sutileza do filme de Ang Lee, por exemplo. Tudo é mais na cara, mais evidente.