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Matan Porat toca uma odisseia com versos de T. S. Eliot

“Nossa exploração nunca vai cessar / e o fim de todas as buscas / será voltarmos ao ponto de partida / e conhecermos aquele lugar pela primeira vez.” O jovem pianista israelense Matan Porat veste a persona de Ulisses e constrói uma odisseia pianística usando esses versos de T. S. Eliot como epígrafe e mote de seu interessantíssimo e original CD, recém-lançado pelo selo Mirare. Intitula-se “Variações Sobre Um Tema de Scarlatti”.

O pianista diz que teve a ideia quando ouviu pela primeira vez a Sonata em Ré Menor K. 32, de Domenico Scarlatti. “Vi nela”, diz ele, “o mesmo potencial da ária que rendeu a Bach as Variações Goldberg. Queria compor eu mesmo algo sobre ela, intrigava-me aquele motivo constituído de um semitom ascendente e depois descendente – uma evocação do símbolo do lamento por vários séculos. Em vez de compor uma peça, compus um ciclo com a ajuda da história da música. Criei uma narrativa associando peças sem relação direta entre si, mas com potencial de conexão, já que integram o motivo do semitom em sua melodia principal”.

Porat pinça peças curtas ao longo da história. Para limitar o quebra-cabeças, encaixou-as de modo a uma deixar encaminhada a solução criativa à seguinte. O CD deve ser ouvido inteiro como se fosse uma só obra – orgânica em sua diversidade, plural em sua essência.

Audácia Demais? Quem sabe. Mas é bom encontrar músicos atrevidos, que saem da mesmice burocrática. Ele construiu uma estrutura de sonata usando peças como temas e motivos. Assim, há uma seção introdutória, do tema de Scarlatti até uma Mazurca de Chopin; em seguida, um punhado de temas lentos compõem um movimento lento, de Schumann a Debussy, que conclui num scherzo da giga de Bach à giga de Mozart. A única peça de envergadura do projeto, La Vallée d’Obermann, de Liszt, abre uma perspectiva mística que culmina com Vers la Flamme de Scriabin. Só a esta altura – depois de 23 peças convivendo como num junto-e-misturado, incluindo de Brahms a Bartók e os contemporâneos Kurtág, Ligeti e Boulez – é que Porat faz um improviso próprio e encerra expondo novamente o tema de Scarlatti.

Tudo isso passaria despercebido se ele não tivesse talento para tocar com adequação e sensibilidade não só o Pássaro-profeta de Schumann como a Notation 4, de Pierre Boulez. As mudanças de clima e proposta estética são tão bruscas que às vezes é difícil encontrar o semitom ascendente/descendente que as liga. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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