Normalmente, é difícil estabelecer diferenças claras entre os pianistas. Afinal, como afirma Luca Chiantore, “as diferenças técnicas são mínimas: todos formaram-se no mesmo repertório; todos tocam em grandes salas de concerto; e todos (ou quase todos) tocam o mesmo instrumento, um Steinway” (livro História da Técnica Pianística). Isso vale para 99% dos pilotos de teclado. Mas não para músicos de exceção. Entre estes, Andras Schiff, Nelson Freire… e Maria João Pires. Cada um com personalidade fortíssima, comungam a capacidade de nos levar, como passageiros privilegiados, a suas viagens musicais a cada vez soando inéditas. Mesmo que o repertório seja arquiconhecido, como o do recital de terça, 8, na Sala São Paulo, da João: duas sonatas de Beethoven e seis noturnos de Chopin.

Há tempos, ela declarou buscar a “simplicidade primal” ao fazer música. Confessou igualmente que gostaria de ter vivido no século 18, quando a música integrava umbilicalmente a vida, não como “produto”, mas como “alimento” naturalmente necessário no dia a dia das pessoas.

Essa concepção holística da música transpareceu de modo fulgurante em suas leituras apaixonadas/apaixonantes de duas sonatas capitais de Beethoven, separadas por mais de duas décadas. Na célebre Patética, a n.º 8, de 1799, o gosto pelos intervalos dissonantes como a sétima dá o tom de uma escrita já revolucionária, que soa verdadeira nos dedos da João. E na derradeira, a 32.ª, opus 111, de 1822, testamento para o futuro e cerimônia de adeus do gênero, as dissonâncias foram ressaltadas pelos dedos da João com a dose exata de força e sutileza, para não soarem como corpos estranhos. Ao contrário, são essenciais à estrutura da obra em dois movimentos que provocou no editor Schlesinger de Paris a dúvida se o copista teria esquecido o Allegro final. A seu secretário Schlinder, Beethoven disse ironicamente que não tivera tempo. No trilo da formidável Arietta que o professor Kretzschmar, no capítulo 8 do Doutor Fausto, de Thomas Mann/Adorno, chama de “algo inesperado e emocionante em sua suavidade e generosidade”, Maria João nos entregou exatamente isso: uma interpretação inesperada e emocionante em sua suavidade e generosidade.

Chopin é outra especialidade da João. Os seis noturnos de Chopin soaram como genial intermezzo romântico, indicando uma das possibilidades de o século 19 desviar-se sem bater de frente com o “monumento Beethoven”. Sua genial fusão entre o cantabile das longas frases melódicas bellinianas, o gosto por Bach e as danças de seu país resultaram em peças capazes de hoje em dia sensibilizar todo tipo de público. Tudo isso filtrado nos dedos da João.
As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.