Cinema em cena
A atriz Kirsten Dunst encarnou a famosa rainha francesa.

São Paulo – Já virou maldição – os filmes que Cahiers du Cinéma escolhe para colocar na capa de sua edição especial sobre Cannes não têm feito muito boa figura na Croisette. Em 2005, foi The Last Days, de Gus Van Sant. No ano passado, Marie Antoinette, de Sofia Coppola. A filha de Francis Ford Coppola chegou a Cannes com pinta de campeã, mas, no fim, foi-se embora sem nem mesmo um prêmio de consolação para sua Maria Antonieta. O filme estreiou no Brasil na última sexta-feira. É bom. E é até mais político do que a própria Sofia talvez quisesse que fosse.

Em Cannes, na coletiva após a exibição do filme para a imprensa, a diretora divertiu-se com as analogias feitas pelos críticos. Ela teria se projetado na personagem da rainha da França por ser, ela própria, membro da realeza de Hollywood. Seu novo filme, como o anterior (Encontros e Desencontros), também conta a história de uma mulher – jovem – lost in translation. Scarlett Johansson manifestava o estranhamento da americana, perdida não apenas no fuso horário de Tóquio, mas na complexidade da cultura japonesa, tão diferente da dela (e do astro que grava um comercial sobre uísque, interpretado por Bill Murray). Marie Antoinette, a austríaca, é uma estranha na corte de Versalhes.

Sofia disse que, antes de fazer o filme, Marie Antoinette representava, para ela, a imagem da decadência. Quando leu o livro de Antonia Fraser, ela percebeu que a personagem era muito mais complexa e fascinante. Estimulada, pesquisou para ver se conseguia captar o verdadeiro sentido da experiência humana da rainha. Foi o que tentou expressar na tela. ?É uma personagem muito interessante, com múltiplas facetas. Quis me concentrar no foco mais pessoal dessa figura histórica cujo enigma até hoje nos persegue. E queria que o filme transmitisse uma energia adolescente, porque a rainha e o rei são pouco mais que crianças.?

Marie Antoinette tinha 14 anos quando chegou à corte, para se casar com o futuro rei Luís XVI. Como uma garota, mesmo uma princesa, criada numa corte menos protocolar, ele acha ridícula toda aquela encenação, o que provoca uma ríspida observação da árbitra da elegância, interpretada por Judy Davis: ?Ça, Madame, c?est Versailles?.

Sofia admite que o que a atraiu foi a possibilidade de mostrar que a rainha foi uma mulher moderna, avant la lettre. A seu lado, na mesa, Kirsten Dunst, trabalhando com a diretora pela segunda vez, após As Virgens Suicidas, acrescentou ?Achei interessante fazer o papel porque Sofia deixou claro que não queria que eu simplesmente criasse uma personagem histórica. Ela me deu liberdade para ser quem sou. Para mim, foi uma experiência visceral, sensual. Em vez de me debruçar sobre o passado, busquei coisas pessoais, minhas, que pudessem servir para a compreensão de Marie Antoinette?.

Revelar a dimensão humana de uma figura tão controvertida implicou em certos riscos. Marie Antoinette é mimada, é fútil, mas surpreende duplamente o espectador que vai ver o filme baseado nos preconceitos que os livros de história (e o próprio cinema) veiculam sobre ela. A Marie Antoinette de Sofia Coppola acha ridícula a frase que lhe atribuem – ?Se o povo não tem pão, que coma brioche? – e se revela uma mãe dedicada.