Num estimulante debate sobre contos, no terceiro dia da Flip, o escritor carioca Sérgio Sant?Anna surpreendeu a platéia com uma provocação envolvendo um dos monstros sagrados da literatura brasileira. Falando de contistas que influenciaram seu trabalho, ele criticou ninguém menos do que Machado de Assis.

– Às vezes, por exemplo, pego um romance do Machado e digo para mim mesmo: ?que chato! Essa ironia de novo…? – afirmou Sant?Anna, arrancando risadas da platéia.

No fim do debate, o jornalista e escritor Sérgio Rodrigues, mediador do encontro entre Sant?Anna e o escritor mineiro Luiz Vilela, ironizou:

– O Sérgio deu a manchete deste encontro: Machado é um saco! Até porque jornalista tira tudo do contexto.

No contexto: Sant?Anna disse que lê ou relê alguns autores com olhos extremamente críticos, procurando defeitos e falhas, como estratégia para esvaziar sua própria obra de referências explícitas ao trabalho alheio. Com isso, acredita, sua obra pode ter hoje um estilo próprio, inconfundível. Além disso, afirmou que pode brincar com Machado por já ter lido a sua obra.

– Quem não leu, precisa ler -ressalvou.

Vilela disse que suas influências incluem humoristas e poetas, não apenas contistas. E deixou de lado a modéstia que caracterizou a maior parte de seus comentários.

– Sendo bem pernóstico, posso dizer que hoje já sou mais influenciador do que influenciado.

Vilela diz que recebe uma enorme quantidade de livros de novos autores para ler e que encontra em muitos deles traços claros de sua obra, caracterizada principalmente por contos aparentemente simples, mas de elaboração longa e trabalhosa.

– Já li um que copiava trechos inteiros de contos meus. Esse eu nem respondi – disse Vilela.

– Todo mundo quer ser artista, todo mundo quer aparecer de alguma forma – disse Sant?Anna. – Para quem sabe a dificuldade de se escrever, é triste ouvir alguém dizer ?deve ser bacana ser escritor?.

O imenso trabalho de escrever, que nem sempre é percebido pelo leitor ao se deparar com seus contos claros e fluidos, foi resumido por Luiz Vilela, que disse já ter perdido o sono por causa de uma vírgula. Sobre o eterno debate entre experimentalismo e enredo na literatura, tema de algumas discussões na Flip, Vilela disse que acha tudo isso ?furadíssimo, uma bobagem?.

– O escritor escreve o que quiser, escreve o que brota de dentro e não o que brota de fora. Não precisa ninguém dizer para um escritor sério fazer o melhor possível, nem a mãe dele. Este é o chão da arte: a liberdade.