“Pescador da barca bela/Onde vais pescar com ela/Que é tão bela/Oh pescador?”. O poema Barca bela, do escritor português Almeida Garrett foi apresentado a Luiz Felipe Leprevost por um professor do Colégio Paranaense, em Curitiba. Ele estava na sétima série e ainda guarda na memória as estrofes declamadas em sala de aula.

Talvez ali fosse o início do que os próximos anos lhe reservariam. A sensibilidade em observar as coisas do mundo começou cedo e logo ele percebeu a folha de papel como cúmplice de seus conflitos e alegrias.

O curitibano de 31 anos é escritor de frases que expressam os sentimentos mais íntimos da alma humana e também um espectador crítico da vida. Entre as principais publicações do autor estão o livro de poesia Ode mundana (2006) e os de contos Inverno dentro dos tímpanos (2008) e Barras antipânico e Barrinha de cereal (2009) ele ainda mantém um blog, o notasparaumlivrobonito.

Leprevost é um artista multifacetário. A poesia o levou para o teatro e as questões cênicas foram aprofundadas na Casa das Artes de Laranjeiras (CAL), no Rio de Janeiro. A experiência como ator e dramaturgo o conduziram para uma vivência diferente de sua obra. “Experimentar os textos no seu próprio corpo é sempre um aprofundamento, é sempre se rever, se reinventar”.

Ultimamente, ele tem se destacado em Curitiba como dramaturgo, principalmente em parceria com a diretora Nina Rosa Sá. É dele o texto das peças Na verdade não era – que esteve em cartaz por três temporadas – e Pecinhas para uma tecnologia do afeto.

Depois de comprar seu primeiro livro aos 14 anos, Antologia poética, ele queria ser como Vinícius de Moraes – ao mesmo tempo escritor e compositor. Motivado pela canção Geni e o Zeppelin, de Chico Buarque, ele percebeu que a música pode ser “vista com os ouvidos” e se encantou com a ideia.

Hoje, ele cultiva parceiros como Troy Rossilho e acredita que existe um tipo de poesia feita para canções. Para o escritor, letra de música é poesia, é “um jogo que você propõe com as palavras, como você encadeia essas palavras e procura a musicalidade nelas”.

Nesta entrevista, que aconteceu no Café Mafalda, Leprevost falou sobre as palavras em suas mais diversas formas de expressão.

O Estado: Você se lembra do momento em que a poesia surgiu na sua vida?

Viajava com a família. No rádio do carro tocava Cabocla Tereza, de Raul Torres e João Pacífico. Os vocais combinados às violas, que tornavam pública uma trágica estória, me fisgaram os poros. Eu era uma criança de dez anos, e tive um alumbramento.

O Estado: Que motivações o levam a escrever?

Talvez os humanos mecanismos de se estar sozinho e sem explicação em mim sejam preponderantes. Talvez por acreditar que a literatura é uma das boas chances que a memória tem de perdurar e nossa ancestralidade se fazer inextinguível. Mas quem pode dar certezas? Escrevo mesmo para ter dúvidas e contradições.

O Estado: Quando você percebeu que já era um escritor?

Quando notei que passava horas debruçado sobre o caderno. A mão direita doía mas não largava a caneta. Me via obsessivamente anotando fragmentos de vidas, as minhas e as dos outros. Inventando. Me transformei num fazedor de cebolas, confeccionando a partir do miolo, de dentro pra fora, devolvendo-lhes camadas, num exercício pra vida toda.

O Estado: Que caminhos o levaram ao teatro?

Nutria o desejo de produzir textos teatrais. Em 2002 fiz uma oficina de final de semana para atores. Não parei mais. Precisei me formar ator, experimentando textos com o corpo, pra só daí me sentir capaz em relação à dramaturgia. Então, em mim, quem escreve pra teatro não é o escritor, mas o ator. O que é um paradoxo (que me agrada, ali,ás), já que sou essencialmente escritor.

O Estado: E a música, como foi esse encontro?

Aos 14 anos me deparei com Geni e o Zepelim, do Chico Buarque. Recebi tal potência intuitivamente. Hoje posso apontar algo de suas inúmeras qualidades: A indicação da hipocrisia. O fato de ser uma canção narrativa, com personagens e ação central que evolui. É música pra gente ver com os ouvidos. É literatura sonora. É ontológico, vem da nossa necessidade de enunciação.

O Estado: Como é para você fazer parcerias no trabalho com teatro e música?

Minhas parcerias começam com o afeto. Sou incapaz de criar com alguém sem que a amizade chegue antes. É o caso de meu providencial encontro com a diretora Nina Rosa Sá. Também isso se dá em relação às canções que componho ao lado de Troy Rossilho e, mais recentemente, Thiago Chavez. E mesmo em literatura, nos projetos desenvolvidos com Fabiano Vianna.

O Estado: Quais são as especificidades de produzir um texto dramatúrgico?

Claro que há técnicas e estratégias de composição, mas vão nesse ofício também fatores imponderáveis. No meu caso conta o endereçamento, para quem escrevo e a que tipo de provocação respondo. No mais, adoro ver o texto se levantando do papel, como se Frankenstein viesse ter no mesmo plano de Mary Shelley.

O Estado: Como acontece o seu processo criativo para compor uma letra de música?

Prefiro letras que nascem do convívio com os parceiros, de conversas inteligentes. Nós humanos nos expressemos por metáforas, analogias, de modo que há poesias órfãs por aí na fala das pessoas, pedindo existências mais cantáveis. Basta que estejamos abertos e as canções se agarram na gente.

O Estado: Como você analisa a produção literária em Curitiba?

Se olhamos trabalhos de Assionara Souza, Paulo Sandrini, Carlos Machado, Daniel Gonçalves, Fabiano Vianna, Otávio Linhares, Greta Benitez, Rodrigo Madeira, Edson Falcão, Fernando Koproski, Léo Glück, Sabrina Lopes, Alexandre França, Paulo Biscaia, podemos nos gabar de em Curitiba haver uma das melhores literaturas do País. Incluídos os mestres, Dalton Trevisan, Paulo Venturelli, Thadeu Wojciechowski, somando-se ainda Manoel Carlos Karam, Jamil Snege, Valêncio Xavier (que deixaram obras monumentais), aí não tem pra ninguém.

O Estado: Quais são as dificuldades de ser um escritor no Brasil?

Não só a dificuldade de sobreviver em termos práticos, em relação à moradia, comida, contas, etc, mas também a necessidade de superação do diletantismo, a coragem pra seguir mesmo sem certezas, agindo com fé na amplidão humana.