Luís Melo: ??Gosto de temperar
a tv com teatro…?

Assim que recebeu o convite do diretor Jayme Monjardim para interpretar o mercenário Bento Manuel, de “A Casa das Sete Mulheres”, o ator Luís Melo ficou entre a cruz e a espada. Por um lado, adorou o convite porque sempre quis trabalhar com o diretor. Os dois, aliás, já ensaiavam essa parceria desde “Terra Nostra”, mas a incompatibilidade de agendas nunca deixou. Mas, por outro, não gostou muito da idéia de interpretar, mais uma vez, o papel de antagonista na tevê. “Sinto um enorme prazer em fazê-los porque os antagonistas são sempre ricos e interessantes. Mas quero voltar a interpretar um tipo mais romântico, como o Rubinho”, confessa o ator, referindo-se ao personagem que marcou sua estréia na tevê, em 95, na novela “Cara & Coroa”, de Antônio Calmon.

Passado o receio inicial de fazer mais um vilão, Luís Melo deixou se arrebatar pelo jeitão meio Fausto de ser de Bento Manuel. A exemplo do célebre personagem de Johann Wolfgang Goethe, o personagem de “A Casa das Sete Mulheres” também faz um pacto com o Diabo. Mas, em vez de reivindicar uns anos a mais de vida, ele negocia o amor da mulher amada: a obstinada Caetana, interpretada por Eliane Giardini. “O que mais gosto neste homem é que ele acredita numa coisa e vai até o fim para conquistá-la”, observa o ator. Mas, para conquistar o amor de Caetana, Bento Manuel precisa rivalizar com Bento Gonçalves, personagem de Werner Schünemann. “Sinto orgulho por estar apoiando o Werner nessa empreitada”, garante.

Seletivo

De certa forma, a estréia de Werner na Globo faz Luís Melo lembrar-se de sua própria em “Cara & Coroa”. E o faz recordar também de um conselho que ouviu, certa vez, de Marco Nanini para “demarcar seu território na tevê”. Em outras palavras: não aceitar fazer qualquer coisa. É justamente isso que Luís Melo vem fazendo ao emprestar seu talento dramático apenas aos chamados “projetos especiais” da Globo, como as microsséries “O Auto da Compadecida” e “A Invenção do Brasil”, ambas de Guel Arraes. Caso contrário, ele sabe do risco que corre de ser transformado em reles coadjuvante, sem outra incumbência senão servir de escada para “jovens protagonistas”.

Depois de atender a insistentes pedidos do diretor Wolf Maya para fazer “Cara & Coroa”, em 95, não parou mais. A minissérie “A Casa das Sete Mulheres” já é o seu 10.º trabalho na Globo em pouco mais de oito anos. Nesse período, fez de tudo um pouco: novelas, minisséries e até os chamados “projetos especiais”. “Gosto de fazer televisão, mas gosto de temperá-la com teatro e cinema. Se tivesse deixado de atuar em outras áreas, meu casamento com a tevê não teria durado tanto”, brinca.

Só em boa companhia

Apesar do pouco tempo de carreira na tevê, Luís Melo já aprendeu que ela pode ser “uma amante infiel”. Por isso mesmo, garante que não faz concessões para trabalhar no que não acredita. Das vezes em que abriu precedentes, se arrepende e muito. “Já aconteceu de eu aceitar determinado trabalho por amizade e depois constatar que ele não era nada daquilo que eu imaginava. Aí, você fica na maior roubada!”, reconhece. Para evitar de entrar em outras roubadas, Luís Melo só trabalha com quem já conhece, como os diretores Wolf Maya e Guel Arraes, ou com quem admira muito. Este é o caso de Jayme Monjardim, diretor de “A Casa das Sete Mulheres”. Entre os muitos antagonistas que fez na tevê, elege o Nicanor Batista, de “O Cravo e a Rosa”, atualmente no “Vale a Pena Ver de Novo”, como um de seus preferidos. E por um motivo bastante especial. “O Avancini foi fundamental na minha vida. Sinto muita falta dele”, emociona-se.

Para Antunes, o melhor do País

Sobre Luís Melo, o rigoroso diretor teatral Antunes Filho já disse: ele é o maior ator do Brasil! “Ele é suspeito para falar isso”, corrige o ator, encabulado. Em 1985, o paranaense Luís Alberto Melo entrou para o grupo Macunaíma, dirigido por Antunes, para integrar o elenco da peça “A Hora e a Vez de Augusto Matraga”. Só saiu de lá em 96 depois de aceitar o bendito convite de Wolf Maya para “Cara & Coroa”. A decisão de enveredar pela tevê trouxe problemas à amizade com Antunes. Os dois ficaram um bom tempo sem se falar. “O Antunes não vai compreender nunca. Mas eu respeito a posição dele”, lamenta.

No teatro, Luís Melo ganhou alguns dos mais importantes prêmios brasileiros, como Mambembe, Shell e Molière. Na tevê, não foi diferente. Logo em sua estréia, ganhou o APCA, da Associação Paulista de Críticos de Arte, como revelação em tevê. “Se você não fizer televisão, outro vai fazer. É melhor você ocupar seu espaço do que deixá-lo em aberto”, justifica. Antes de Wolf, Luiz Fernando Carvalho já havia insistido para Luís Melo debutar na tevê. Em 93, o ator só declinou do convite para fazer “Renascer” porque teria de passar 60 dias na Bahia.

Luís Melo lembra que Wolf comprou uma briga danada com a Globo ao escalá-lo na novela. A emissora temia que o público rejeitasse a excessiva teatralidade daquele ilustre desconhecido. “Ao mesmo tempo em que era difícil, aquilo me fascinava. Adoro coisas que não domino porque só assim tenho com que brigar”, frisa. Aos 46 anos, Luís Melo não teme comprar outra briga ao afirmar que, hoje em dia, qualquer pessoa pode fazer televisão. “As cenas são curtas e bem dirigidas. Dá para tapear. Mas o difícil não está em entrar na tevê e sim em continuar nela”, adverte.

De volta à cidade natal

# Luís Melo nasceu em Curitiba no dia 13 de novembro de 1957. Em 79, aos 22 anos, se formou pelo Curso Permanente da Fundação Teatro Guaíra. Ainda em Curitiba, trabalhou como ator e professor de teatro até 85, quando mudou-se para São Paulo.

# No cinema, Luís Melo já contabiliza cinco longas-metragens: “Terra Estrangeira”, de Walter Salles e Daniela Thomas, “Jenipapo”, de Monique Gardenberg, “Doces Poderes”, de Lúcia Murat, “Por Trás do Pano”, de Luis Villaça, e “Gaijin 2”, de Tizuka Yamasaki, sem previsão de estréia.

# Há três anos, Luís Melo fundou, em parceria com a atriz Nena Inoue e o cenógrafo Fernando Marés, o ACT, Ateliê de Criação Teatral, em sua cidade natal. “O sonho de todo ator é ter um espaço para desenvolver um trabalho que o faça envelhecer dignamente”, garante.