A pimenta da polêmica, até agora ausente do Cine Ceará, chegou com o longa-metragem mexicano Obediência Perfeita, de Luis Urquiza. O filme, baseado em livro homônimo de Enrique Alcocer, fala da prática de pedofilia numa organização católica chamada Los Legionários de Cristo. De acordo com o ator mexicano Juan Ignazio Aranda (que interpreta um dos sacerdotes, o padre Galaviz), todos no México conhecem muito bem a história real, mas havia como um véu de silêncio que a cobria – sobretudo no cinema de ficção.

O criador da organização católica, Marcial Maciel (1920- 2008), é personagem controverso no México. Fundador dos Legionários de Cristo, foi acusado de manter relações sexuais com rapazes menores, chegou a ser processado nos Estados Unidos, e foi afastado de suas funções sacerdotais pelo papa Bento XVI. O interesse pela história, que já havia sido focalizada no documentário Agnus Dei: Cordero de Diós (Alejandra Sánchez, 2011), fez Obediência Perfeita chegar a um público de mais de 600 mil pessoas no México, o que, para um filme desse tipo, está mais do que bom.

Aranda conta também que a Igreja mexicana não fez qualquer tipo de manifestação a propósito de Obediência Perfeita. “Por ocasião do lançamento de outra obra considerada anticlerical, O Crime do Padre Amaro (Carlos Carrera, 2002), houve grandes manifestações contrárias por parte da Igreja. Como eles perceberam que isso só serviu como publicidade gratuita para a obra, transformando-o num dos maiores sucessos recentes, desta vez ficaram caladinhos”, diz ainda.

O tema controverso provocou reações diversas, de repúdio, mas também de adesão. Houve mesmo críticas acusando o filme de “pegar leve” com o tema, simplesmente por não mostrar, de forma explícita, as relações sexuais entre os sacerdotes e os meninos. “Ficaria muito chocante, e fazer com que essas cenas fossem apenas insinuadas foi uma opção do diretor”, disse Aranda.

O filme acompanha a trajetória de um jovem seminarista, Julián (Sebastián Aguirre), internado em uma das casas de iniciação dos Legionários de Cristo, onde se torna o favorito do chefe da organização, Ángel de la Cruz (Juan Manuel Bernal). A formação do jovem cumpre as etapas da perfeita obediência, conforme preceitos de Ignácio de Loyola, adaptados por Ángel. A obediência cega, claro, implica submissão sexual. Mas o filme é suficientemente sutil para contemplar a cumplicidade e mesmo a afeição do jovem em relação ao seu molestador. É um filme perturbador, embora seu tom solene às vezes diminua o impacto provocado.

Curtas

Dois curtas-metragens de boa qualidade completaram o programa. Em Marina Vai à Praia, o mineiro Cássio Pereira dos Santos mostra o desejo de uma garota portadora de Síndrome de Down de conhecer o mar. Em Meio-Fio, do Distrito Federal, Denise Vieira acompanha o cotidiano de uma radialista recém-separada do companheiro e apresentadora de um programa para corações partidos. Denise faz parte do grupo do cineasta Adirley Queirós, de Branco Sai. Preto Fica, vencedor do recente Festival de Brasília e que atua em Ceilândia, cidade-satélite onde vivem. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.