Sempre girando em alta voltagem, Nuno Ramos parece estar constantemente preparando alguma surpresa para o público e para si mesmo. Entre aberturas de exposições, idealização e consecução de projetos grandiosos ou intimistas, em voo solo ou em parceria, escritura de livros de prosa e poesia, parece restar pouco tempo para mergulhos mais introspectivos no turbilhão criativo que marca sua carreira desde o início, na década de 80. Mas como uma de suas marcas características é quebrar rotinas, esse talvez seja o caráter mais marcante do livro “Nuno Ramos”, lançado sexta-feira passada na SP-Arte e na próxima quinta, na Livraria da Travessa, no Rio de Janeiro.

A alentada publicação, com quase 600 páginas, percorre em ordem absolutamente cronológica parte significativa da produção do artista. Ao todo, são documentadas mais de 700 obras realizadas por Nuno desde 1984, desde os painéis pintados em esmalte sintético e papel craft no período de revelação dos jovens do ateliê Casa 7, até os registros de sua obra mais polêmica, a instalação Bandeira Branca, que no ano passado foi alvo de forte pressão e incompreensão por parte dos ecólogos de plantão na 29.ª Bienal de São Paulo.

As discussões em torno do uso de animais vivos na obra foram tão intensas que – auxiliados pela concessão do prêmio Portugal Telecom de Literatura a seu livro “Ó”, também lançado em 2010 – fizeram com que Nuno, já em grande destaque como um dos expoentes da arte contemporânea nacional, passasse a ser o 9.º verbete mais consultado ao longo do ano na Enciclopédia de Artes Visuais do Itaú Cultural (se excluídas questões de caráter mais geral, como o modernismo, o dado é ainda mais impressionante, já que ele passa a ocupar a 5.ª posição, com mais de 40 mil acessos).

A opção por organizar a obra numa linha do tempo, em vez de destacar afinidades de universo temático, formais ou materiais acabou, paradoxalmente, evidenciando ainda mais a existência de certos núcleos de força nas obras de Ramos. É como se ao longo desses 25 anos de produção tivessem se formado pequenas famílias, que se sucedem como ondas e que muitas vezes retornam sob aparências e ênfases distintas, se emaranhando num leque ao mesmo tempo amplo e reiterativo de poéticas.

Um aspecto curioso do livro é o caráter um tanto avesso da obra de Nuno em relação à representação fotográfica. Há momentos em que fica evidente a impossibilidade de sintetizar visualmente no livro a densidade dramática das ações, como aqueles dedicados a trabalhos ímpares como “111” (como diz Tassinari “há poucas obras na arte contemporânea com a intensidade poética e a convicção ética” como a dessa instalação inspirada no massacre dos presidiários do Carandiru, em 1992) e Morte das Casas, quando fez chover dentro do Centro Cultural Banco do Brasil. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.