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Priscila Fantin e Cláudia Jimenez em cena de Sete pecados.

Novelas encantadas, com anjos, bruxas ou feitiços, há tempos não trazem novidades. Desde Brida, na extinta Manchete, passando por Deus nos acuda, na Globo, em 1993, até a atual Eterna magia, temas que utilizam encantos e magias são cada vez mais freqüentes. No entanto, com Sete pecados, Walcyr Carrasco consegue um efeito surpreendente. Sem tatibitates, o autor estréia no horário das sete mostrando um lado menos infantilizado dos atrativos ?sobrenaturais?. Mesmo ao abordar anjos, como a personagem Custódia, de Cláudia Jimenez, o autor permeia a história com recursos ?diabolicamente? mais atraentes, como os sete pecados capitais. O que, a princípio, parecia mais uma novela recheada de ?pó de pirlimpimpim?, se mostra uma divertida comédia apropriada para o horário.

Priscila Fantin, como a sedutora protagonista Beatriz, também estréia numa história contemporânea esbanjando maturidade e fartas pitadas de sensualidade. Chega a roubar a cena de veteranos, como Rebeca, de Elizabeth Savala, sua mãe perua apenas preocupada com injeções de botox. Como uma típica ?patricinha? paulistana, a atriz mostra desenvoltura na personagem que reúne os sete pecados da trama que estreou com 36 de média e share de 53%.

Entre bonitos ?takes? em tradicionais avenidas da capital paulista, o autor muitas vezes parece se confundir com o estilo paulistano de Sílvio de Abreu ao ambientar e contar histórias que enaltecem a cidade nos dias atuais. Mas Walcyr consegue ir além: mescla o ?glamour? da inquieta noite da cidade com o romantismo de recantos dos núcleos pobres, como da família de Dante, de Reynaldo Gianechinni. Em sua segunda trama consecutiva no cenário paulistano – após o mecânico Pascoal de Belíssima -, o ator reafirma sua aplicação pela carreira e surpreende como o angelical taxista.

Destaque também para a correta e antenada produção de arte de Isabella Sá e para os cuidadosos figurinos de Lessa de Lacerda. Apesar de pouca inovação na direção, Jorge Fernando resguarda o essencial da história: o tradicional humor de Walcyr, agora traduzido para os dias atuais. Jorge deixa de lado a lente de aumento na comédia para apenas contar com eficiência a história cujos alicerces estão evidentes apenas no texto.

Apesar de grandes acertos, fica clara a ausência de nomes de peso entre personagens de destaque. Sidney Sampaio, por exemplo, que vive Pedro, poderia ter um papel bem menor para evitar ser ?devorado? por seus colegas de cena. Em contrapartida, Mel Lisboa mais parece uma figurante como Carla, a irmã mais jovem de Clarice, vivida por Giovanna Antonelli.

Outro lugar-comum recorrente nas tramas é sempre mostrar as personagens mais ousadas e interessantes, como a ardilosa Beatriz, de Priscila Fantin, como a rica da história. Já a mocinha boazinha é normalmente a pobretona com um avental sujo de ovo na cintura. Esta estrutura mais que tradicional das novelas inspira alguns bocejos de ?déjà vu?. Isso sem falar do didatismo ao mostrar os ?pecados? como atitudes do ?mal?. O ranço cristão impregnado há tempos nas novelas não permite abrir espaço para questionamentos e análises mais subjetivas do lado bom e ruim dos ?pecados?, sem moralismos. Mesmo assim, os pecados apresentados como ?exemplos do mal? não comprometem o conjunto bem estruturado de Walcyr. Muito menos após a interessante abertura da trama, com imagens congeladas em três dimensões exemplificando os pecados. Uma forma simples e eficaz de registrar as tentadoras intenções da trama. Walcyr pode pecar à vontade.