Na primeira hora Jackson desfia para o público atento seu repertório de referências, de Cidadão Kane a Joseph Conrad, além de várias cenas idênticas ao original. Na ação, o diretor de cinema Carl Denham (Jack Black em papel sério e inacreditavelmente pouco caricato, quase contido) tenta conseguir verba para seu filme e encontra a substituta para sua atriz principal (que desertou) na atriz de vaudeville desempregada Ann Darrow (Naomi Watts em um papel tão tolo que nem parece a mesma que fez o profundo 21 Gramas).
Sem conseguir a verba, Denham foge de navio com equipe técnica, roteirista ? (Adrien Brody, o atual feio mais lindo de Hollywood e única a se interessar pelo papel de Jack Driscoll) e elenco em busca da tal Ilha da Caveira para realizar seu filme. Mais blábláblá no navio, envolvimento de Driscoll com Ann, Denham como vilão que usa a câmera como arma e eis que a primeira hora ainda não terminou.
Gollum como King
King Kong foi feito da mesma forma que o personagem Gollum, do Senhor dos Anéis, e pelo mesmo ator, Andy Serkis. Ele teve suas expressões faciais transformadas e adaptadas para a linguagem de um gorila por meio de um software desenvolvido especialmente para o filme. O preparo envolveu pesquisa com um primatólogo e a participação de Serkis nas gravações, para que os atores conseguissem se envolver emocionalmente nas cenas. De acordo com uma entrevista de Naomi Watts, quando ele precisava interpretar a cena olhando para ela, fazia com uma boneca Barbie.
Qualquer um que tenha lido algo a respeito do filme já deve saber que King Kong versão 2005 é muito humano. O primata é solitário, vive sob constante stress de ter de delimitar seu território ? já que divide a ilha com T-Rex e parentes ? não tem parentes e nem uma companheira. É, provavelmente, o último de sua espécie. Mas ele não consegue convencer ninguém disso, a não ser Ann, que dorme em suas mãos. E por isso, depois de muita luta e mais efeitos especiais ele é capturado por Denham é levado para Nova Iorque.
Na última hora do filme é possível acompanhar a cidade de Nova Iorque de 1933 em três dimensões, nascida das mãos de 450 artistas de efeitos visuais, em 53 cenários em miniatura, com 150 maquetes esculpidas a mão e um software de condições climáticas que permitia cobrir Manhattan digitalmente com neve e chuva. É o ápice do filme, quando Peter Jackson finalmente realiza seu sonho que começou quando tinha apenas 12 anos, de fazer a versão high-tech da história do clássico.
No longínquo fim, King Kong não é um mau filme, só é longo demais. Fica a sensação de que Peter Jackson não conseguiu decidir-se ainda em fazer filmes autorais ou de ação e efeitos especiais. Tentando equilibrar-se em ambos, acaba ficando sem os dois coelhos. Na certa, não ouviu na escola (de cinema) a famosa frase ?cinema é corte?, ou não quis dar ouvidos. Pena o espectador, que tem de levar uma almofadinha de casa.