Concerto bom é aquele no qual você consegue esquecer-se de você mesmo e mergulha na música que rola no palco. As duas obras do primeiro concerto de Kent Nagano e a Orquestra Sinfônica de Montreal na última terça-feira (1) na Sala São Paulo, dentro da temporada 2019 da Sociedade de Cultura Artística, sem dúvida, contribuíram para que isso ocorresse. A estrelada violinista Veronika Eberle foi substituída pela russa Alexandra Soumm, intérprete empenhada que estabeleceu imediata empatia com o público. Claro, o admirável concerto de Brahms contribuiu decisivamente para isso. A regência refinada de Kent Nagano fez da orquestra não mero acompanhante da solista, mas parceira generosa com dinâmicas perfeitas para realçar, sem jamais cobrir, o heroico discurso de Alexandra.

Pena que a fileira em que me encontrava, na Sala São Paulo, lotada no Brahms, esvaziou-se no Concerto para Orquestra de Bela Bartók, num temor injustificado pela sua música tida como “difícil”. Pena, porque os que renunciaram à segunda parte perderam uma performance memorável dos músicos canadenses comandados por Nagano.
Não só isso. Deixaram de compartilhar uma narrativa musical extraordinária, que o compositor explicou assim nas notas de programa da estreia em dezembro de 1944: “A atmosfera geral da peça representa – se descartamos o gaiato segundo movimento – uma transição gradual da severidade do primeiro movimento e da lúgubre canção de morte do terceiro para a afirmação da vida que constitui o final”. Com leucemia, Bartók viveria só mais nove meses. Confessou também que compôs rapidamente os movimentos iniciais, mas com extremo esforço o final, que justamente canta a vida, algo que ele sentia esvair-se dele inexoravelmente.

É incrível sua maestria rítmica e métrica, variedade de contraponto, suntuosidade do timbre, procedimentos de tratamento temático e sutilezas de forma, escreve Clarine Delamarche (Fayard, Paris, 2012), tentando qualificar a “beleza” tão característica de sua música. Tudo isso está presente nessa obra, injustamente acusada de ser uma mancha retrógrada na obra de um compositor esteticamente avançado. Nela, Bartók até deu um jeito de ridicularizar a Sinfonia n.º 7 de Shostakovich, que ouvira pelo rádio, em 1942, com Toscanini e a Orquestra da NBC (no Intermezzo “interrotto”).

Experiente, Nagano conseguiu injetar na execução a “urgência” do compositor em afirmar a vida no seu gesto criativo final. A orquestra respondeu à altura das exigências de seu líder. E os que não abandonaram a Sala São Paulo depois do Brahms foram plenamente recompensados por uma execução memorável de uma obra-prima sinfônica do século 20.
As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.