Nomeado na sexta-feira (04) novo diretor artístico do Teatro Municipal do Rio, o maestro Isaac Karabtchevsky diz que sua decisão de aceitar o posto “esteve cercada de perguntas”. “A lógica impunha-me, dentro dos meus 78 anos, recusar gentilmente a honraria. Mas o conjunto tão singular de efemérides que só vão se repetir novamente em 3113, propunha uma alternativa gloriosa, aquela de finalmente poder dirigir no Brasil alguns dos títulos que fiz na Europa.”

Karabtchevsky está se referindo aos bicentenários dos compositores Giuseppe Verdi e Richard Wagner, nomes fundamentais da história da ópera, que serão comemorados ao longo desta temporada. E, assim, dá uma pista do repertório que planeja programar já para este ano, adicionando à lista de datas importantes o centenário do compositor inglês Benjamin Britten e os bicentenários do dramaturgo Georg Büchner, autor do Wozzeck (peça transformada em ópera pelo compositor Alban Berg) e do teólogo dinamarquês Kierkegaard. “Este é um ano que de certa forma comemora a redenção cultural da Europa”, diz o maestro à reportagem.

Para Karabtchevsky, que já dirigiu o Teatro Municipal de São Paulo nos anos 90 e, na Europa, o Teatro La Fenice, de Veneza, há uma lacuna de repertório a ser preenchida nos próximos dois anos – no Rio, o Municipal é mantido pelo governo estadual. “O céu precisa ser o limite. Parto do princípio de que o público brasileiro necessita conhecer obras que jamais foram apresentadas na cidade, a lista é enorme! É como gostar de ler e desconhecer a existência de Shakespeare ou Leon Tolstoi, apenas para citar dois dos grandes. É estarrecedor o anonimato ao qual foram condenados grandes compositores do passado e do presente, como num ato de censura. Quero nestes dois próximos anos abrir as janelas, trabalhar em concomitância com tradição e renovação” diz, e explica como vê um teatro como o Municipal no contexto cultural dos dias de hoje.

“Assim como a orquestra, um coro e um conjunto de dança podem ser encarados como uma metáfora da sociedade que nos cerca, o teatro é o edifício que lhes dá amparo e representa ao mesmo tempo uma referência para a riqueza cultural de um povo. Ele simboliza a sublimação de um país para um nível culturalmente superior e, como tanto, merece um tratamento de exceção por parte de nossos dirigentes.”

Além da questão do repertório, no entanto, Karabtchevsky diz estar “de volta ao campo de batalha, no afã de conciliar minha intensa carreira com o desafio de estruturar a vida dos conjuntos da casa e dar visibilidade ao Teatro Municipal”. E vê alguns desafios pela frente. “O primeiro passo será criar uma equipe de apoio que me permita trabalhar sem sobressaltos. Um grupo que começa por um maestro titular e um diretor executivo. Os outros elementos virão progressivamente”, explica, dizendo já ter dois nomes confirmados, que só serão anunciados após “a equipe de trabalho estar completa”.

Outro tema delicado é o preenchimento de vagas na orquestra e no coro do teatro – no final do ano, artistas da companhia iniciaram uma campanha na internet pedindo a realização de concursos para que se completem os quadros dos corpos estáveis. Sobre o tema, Karabtchevsky ainda não dá detalhes e afirma apenas que pretende “corrigir algumas das questões que vêm afligindo os conjuntos da casa: a ausência de um critério de gestão que permita completar seus quadros sem incorrer no eterno problema de eventuais contratações”. O maestro vai acumular o posto no Municipal com o cargo de diretor artístico da Petrobras Sinfônica, baseada no Rio e da qual é titular desde 2004, e da Sinfônica Heliópolis. Ele também vai continuar com o projeto da gravação da integral das sinfonias de Villa-Lobos com a Osesp e com os cursos de regência que dá anualmente em Riva del Garda, na Itália, e em Olinda.