Jorge Ferreira tirou o
Dória de um navio italiano.

São 56 anos de muito talento, humor e deboche exibidos no cinema, no teatro e na televisão. “Já estou me esquecendo desse detalhe”, ironiza Jorge Dória, atualmente no ar em Zorra Total, da Globo, sobre o extenso currículo. A carreira de ator, porém, começou por acaso. Nascido Jorge Pires Ferreira, recebeu uma educação rígida e tinha tudo para ser militar, como o pai. “Eu tinha uns 14 anos quando meu pai morreu. Se ele estivesse vivo, na época, talvez eu seguisse a carreira militar. Ele morreu e eu comecei a ser boêmio”, admite.

Ele freqüentava a Cinelândia, um dos redutos da boêmia carioca, e lá foi convidado pelo diretor Teófilo de Barros Filho para fazer o filme Mãe. Daí em diante, não parou mais e se transformou definitivamente em Jorge Dória, “sobrenome” sugerido pelo costureiro que fazia as roupas para o filme, após ter lido uma matéria em uma revista sobre o navio italiano Dória.

O programa Zorra Total é uma diversão para Dória. “As gravações do Zorra são muito engraçadas. São horas bastante agradáveis”, conta o ator, que interpreta Matheus, um síndico corrupto. A disposição para trabalhar é tanta que Dória, mesmo aos 84 anos, quer fazer mais uma novela e já está pensando em um novo tipo para o humorístico. “É um cara que acha que todos os maridos das amigas da mulher dele são gays. Acho que ele vai virar para eles e falar: ?Olha o jeito dele se fazendo de machão. Exasperou, boneca!?”, adianta.

O trabalho que Jorge Dória mais se orgulha de ter feito na tevê foi o Lineu da primeira versão de A Grande Família, exibida de 1972 a 75. “O Lineu era um grande herói nacional e tinha uma grande repercussão. O programa contava uma história digna e foi um dos trabalhos mais cuidados que já fiz”, explica. Para Dória, a nova versão de A Grande Família é muito bem-feita, mas é apenas uma comédia. “O programa era mais sério, mas nem por isso deixava de ser engraçado. O público entendia as entrelinhas”, explica, se referindo à Ditadura Militar.

A primeira novela de Dória foi O Noviço, em 1975. Mas a que mais lhe marcou foi feita três anos depois: O Pulo do Gato, de Bráulio Pedroso, o mesmo autor de Beto Rockfeller. Nela, Jorge Dória interpretava Bubi Mariano que, para escapar da falência, pretendia dar golpes na “grã-finagem” que o rodeava. “O meu nome era o principal da novela. Tive um ótimo papel e uma boa oportunidade de trabalhar e, na tevê, o importante é ter um grande papel”, justifica o ator que também guarda uma lembrança especial das novelas Brega e Chique, de Cassiano Gabus Mendes, que fez com Marília Pêra, e Zazá, de Lauro César Muniz, onde contracenou com Fernanda Montenegro.

Em primeiro, o teatro

Apesar do carinho que sente pela tevê, Jorge Dória tem verdadeira adoração pelo teatro e suas recordações mais significativas vêm justamente dos trabalhos no palco. Ele começou na companhia Eva e Seus Artistas, da atriz Eva Todor. “Foi ali que aprendi tudo, mas eu não muita tinha chance de aparecer”, lamenta o ator. Certa vez, quando foram para Belo Horizonte encenar a peça O Bicho-do-Mato, houve até uma brincadeira com o nome da companhia. “O carro de som anunciou: ?Eva e os seus bichos-do-mato?”, relembra. É no teatro também que Dória pode abusar de uma das suas características mais marcantes como ator: o improviso. “Os ?cacos? são uma colaboração com o autor”, garante.

Segundo ele, essa capacidade já “salvou” algumas montagens do fracasso. As primeiras apresentações da peça O Avarento, de Molière, protagonizada por Dória, não obtiveram sucesso. “Comecei a dizer os ?cacos?. Atualizei o modo de falar, obedecendo a intriga criada por Molière. Com isso, o espetáculo deslanchou”, explica o ator, satisfeito com o resultado. Na tevê, ele não tem tanta liberdade para improvisar, mas sempre arruma uma brecha, como fez em um recente diálogo com o ator Tom Cavalcante no Zorra Total. “?Fala, fala. Você parece novela que demora 4 meses para dizer quem matou Lineu…?. Isso o autor não escreveu. Mas me veio à cabeça e falei”, assume.