Bateristas de jazz raramente são os bandleaders. É possível contar nos dedos das mãos os que o foram: Art Blakey, Max Roach, Billy Cobham, Jimmy Cobb, Roy Haines, Gene Krupa. O que levou o diretor de “Whiplash” a escolher a difícil bateria (em vez do trompete, do sax ou do piano) como o elemento simbólico de seu conto da era do jazz?

É que o cineasta Damien Chazelle foi, ele mesmo, um postulante a jazzista, e a fisicalidade envolvida na bateria o fascinava. Se o espectador é daqueles que detestam os solos de bateria intermináveis de shows de jazz, não é o seu tipo de filme.

“Whiplash”, a música do saxofonista, compositor e regente Hank Levy (1927-2001) que dá título ao filme, é de certa forma a chave dessa obra. Não é um standard famoso, e é usualmente tocado em conservatórios como baliza educacional. Ela nunca é tocada em sua inteireza no filme, são apenas partes. Sua peculiaridade é conter “odd meters”, ou batidas simples e compostas que desafiam a pulsão e o controle do baterista.

Justin Hurwitz é o cérebro, o responsável pela trilha sonora original (free e atonal, em sua grande parte). Ele lança mão de raros standards, como Caravan, de Duke Ellington, e Intoit, de Stan Getz. Tim Simonec é o outro compositor – é dele o tema surpresa que vai se constituir, na cena final, na mais terrível prova para o jovem baterista.

“Não existem duas palavras mais danosas na língua inglesa do que ‘good job!’ (bom trabalho)”, diz o terrível professor Fletcher (J.K. Simmons), personagem central de “Whiplash”. Em sua lógica de Sargento Tainha da música, o elogio da performance mediana poderia fazer um músico medíocre ir longe demais. Um perigo.

Com engrenagem de competição esportiva, exalta o lado de potência e precisão do jazz – e fustiga o lado de emoção e “pieguice”. Personagens são monásticos, amor e família são vistos como “distração”. Em vez do desregramento da heroína e da vida no limiar da marginalidade, é o elogio da transpiração, da aplicação.

Não é por acaso que o filme idolatra a filosofia do trompetista Wynton Marsalis: “Nada aconteceria se um músico da minha orquestra montasse uma banda de hip-hop. Eu estaria apenas perdendo um músico”.

Essa é a opção do diretor. Ainda assim, talvez seja o mais importante filme sobre o gênero desde Bird, de Clint Eastwood. A escola do filme é certamente decalcada da estrelada Juilliard School, e as cenas de ensaios são luminosas, envolventes. Embora guardem um distanciamento olímpico uns dos outros, os músicos afinam suas personalidades nos ouvidos do espectador.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.