“Quando é preciso, ele fere como um raio”, disse dele Mozart. E Beethoven aconselhava: “Procure em Haendel e aprenda com ele a produzir tão grandes efeitos com tão poucos meios”. A empolgante “viagem” pelas árias e recitativos de óperas entremeados por peças instrumentais provou esse poder do compositor, graças aos excelentes músicos da orquestra Le Concert de la Loge e ao fabuloso supercontratenor francês Philippe Jaroussky na última segunda-feira, dia 24, na Sala São Paulo, dentro da temporada 2017 da Sociedade de Cultura Artística. Händel nasceu alemão, virou italiano ao passar quatro anos pela península e depois Haendel para dominar a vida musical inglesa de modo avassalador, primeiro no reino da ópera, depois no do oratório, a ponto de ser entronizado postumamente como um dos grandes compositores… Ingleses.

continua após a publicidade

Dizer que Haendel foi a razão do sucesso responde em parte à magia musical desse concerto. De fato, e Romain Rolland ressaltou isso numa biografia de 1910, sua música parece “ser um improviso perpétuo”. Sua música queria – e conseguia – atingir o público imediatamente.

continua após a publicidade

O segundo vértice desse triângulo virtuoso se deve à orquestra de instrumentos autênticos Le Concert de La Loge. Seus 17 músicos constroem frases precisamente desenhadas, dinâmicas que hipnotizam, allegros e prestos com extrema justeza de afinação – tudo isso qualifica como memorável a execução da abertura à francesa de Radamisto e sobretudo do Concerto Grosso op. 6, n.º 1. Nos trechos da Música Aquática, incomodou a velocidade excessiva, que fez a bourrée e o Allegro virarem corrida de fórmula 1. Nada importante. Afinal, bastava partilhar o swing das três violinistas de frente, transformando seus instrumentos em extensões naturais de seus corpos, para se deixar seduzir por essa música contagiante.

continua após a publicidade

Jaroussky, no pleno domínio de suas qualidades superlativas – seja de emissão, seja de expressividade interpretativa -, fechou com chave de ouro a noite com suas oito performances. Comoveu pelo amor que aflora em “Bel contento” e causou espanto pela incrível agilidade vocal na ária de bravura Rompo i Lacci, ambas de Flávio, Rei dos Lombardos. Juntos, orquestra e cantor uniram-se num pianíssimo dificílimo de se produzir com tamanha sutileza em Deggio Morire, o Stelle, de Siroe, Rei da Pérsia.

Mas foi Radamisto que, além da abertura, proporcionou os momentos mais emocionantes da noite: Jaroussky se autoexaltou como herói e guerreiro no recitativo Vieni d’Empietà e na ária Vile, se Mi Dai Vita (esta com trechos coloratura de fazer levantar o público); e resignou-se contrito na ária Ombra Cara, em que o herói já lamenta a perda próxima de sua paixão. Entre os extras, atendendo aos pedidos do público, Jaroussky encantou com Ombra Mai Fu.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.