tv41.jpgDos muitos diretores da Globo, Jorge Fernando pode ser considerado o mais anticonvencional. Ao contrário dos demais, só vai trabalhar de bermuda, gosta de aparecer nas novelas que dirige e vive mostrando a bunda para descontrair o ambiente. Mas, ao contrário do que se possa imaginar, tamanha irreverência nunca lhe trouxe problemas. Ao longo da carreira, Jorge Fernando conseguiu provar que a irreverência só não é maior do que a habilidade para dirigir novelas de forte apelo popular, como Guerra dos Sexos, Que Rei Sou Eu? e Vamp. Prova disso é que, em menos de um mês, reergueu a audiência das seis dos 25 pontos de Como Uma Onda para os atuais 36 de Alma Gêmea. ?Felizmente, sempre fui respeitado do jeito que era. Nunca precisei fazer tipo para ser aceito em lugar nenhum?, orgulha-se.

Nos últimos dez anos, a média de Alma Gêmea só não é maior do que a de Chocolate com Pimenta, também dirigida por Jorge Fernando. Enquanto a atual registra média de 36 pontos e ?share? de 57%, a anterior alcançou, no mesmo período, média de 37 e ?share? de 59%. Por conta disso, Jorge é o primeiro a ressaltar que o mérito não é apenas seu. É também do autor Walcyr Carrasco. Foi ele, inclusive, quem apresentou Jorge Fernando às produções de época. ?Numa trama do gênero, um tapa na cara é gancho forte o suficiente para virar final de capítulo. Já numa novela das oito, é a coisa mais corriqueira do mundo?, compara.

Para Jorge Fernando, Walcyr foi um dos responsáveis também pelo seu amadurecimento profissional. Habituado a trabalhar com Sílvio de Abreu, de quem dirigiu sete novelas, Jorge voltou a fazer as pazes com o sucesso em 2003, quando dirigiu Chocolate com Pimenta. ?O Sílvio é o meu marido e o Walcyr, meu amante. Apesar de amar os dois, tenho saído mais com o amante?, brinca. Aos 50 anos, Jorge Fernando garante que aprendeu a lidar melhor com os reveses da profissão e, principalmente, a ouvir mais e falar menos. ?Você só berra e dá ataque quando está inseguro ou quer provar alguma coisa para alguém?, reconhece ele.

P – Em menos de um mês, Alma Gêmea se tornou a segunda novela de maior audiência das seis nos últimos dez anos. O que não pode faltar numa trama para ela cair nas graças do público?

R – Antes de mais nada, uma boa história. Uma história que prenda a atenção do público por oito meses. Porque não adianta a novela fazer sucesso hoje. Ela tem de continuar fazendo sucesso daqui a seis, sete meses. Com uma boa história em mãos, temos de ter também um bom elenco. E, principalmente, um diretor que entenda essa história e não fique brigando com ela. Porque aí é que a coisa não dá certo mesmo. A gente precisa entender que, nessa brincadeira toda, o autor é a grande estrela. É ele quem comanda o espetáculo. Por fim, o sucesso de uma novela depende também da época em que ela estréia. A gente precisa juntar a fome com a vontade de comer. Acho, inclusive, que As Filhas da Mãe só se tornou o meu maior fracasso, em termos de audiência, por causa disso. Escolhemos uma péssima época para estreá-la…

P – Por quê?

R – Porque houve o 11 de Setembro. O Rio, o Brasil, o mundo, ninguém estava com disposição para aceitar nada. Pessoalmente, considero As Filhas da Mãe um dos meus melhores trabalhos. Depois de 20 anos, eu e o Sílvio propusemos coisas novas. Mas as pessoas que poderiam gostar daquilo não descobriram a novela.

P – Em março, você completou 50 anos. Profissionalmente, o que mudou na sua vida?

R – O barato de envelhecer é justamente esse: as coisas vão ficando mais claras para você. Antigamente, eu trabalhava com 40, 50, 60 pessoas e, na verdade, só conhecia umas 4, 5 ou 6 delas. Ficava muito pilhado para gravar. Quando o telefone tocava na minha mesa, já atendia aos berros: ?Merda, o que você quer?!?. Hoje em dia, não. Procuro ser mais gentil… Além disso, aprendi a não valorizar tanto os pequenos problemas da vida. Problemas, meu amigo, vamos ter sempre. Uns vão ficar doentes, outros vão perder a ponte aérea… Isso quando não chove e atrasa a gravação. Tudo isso faz parte da gincana que é a vida de um diretor de novelas.

P – Você é um dos diretores mais atípicos da Globo. Só anda de bermuda, gosta de aparecer nas novelas que dirige e vive mostrando a bunda em público. De onde vem tanta irreverência?

R – Minha infância toda foi vivida em Del Castilho, subúrbio do Rio. Mesmo quando eu era magro, lindo e gostoso, já gostava de bermuda… (risos) O meu maior mérito é não ter de fazer tipo para ser aceito em lugar nenhum. Sempre consegui ser do jeito que sou e as pessoas sempre me aceitaram assim. Felizmente, o meu trabalho sempre veio em primeiro lugar. Nunca fui questionado por quem quer que fosse por que era assim ou assado. Muito pelo contrário. O meu trabalho, sim, sempre foi muito respeitado. Graças a Deus.

P – Você lembra da primeira vez que recorreu a esse inusitado estratagema para descontrair um ambiente tenso?

R – Ah, lembro… A primeira vez a gente nunca esquece, né? (risos) O negócio de mostrar a bunda em público começou numa gravação de motocross. Como a barulheira era danada, eu não conseguia me comunicar com a arquibancada. Foi quando eu tive a feliz idéia de mostrar a bunda. Puxa, as pessoas foram ao delírio! Como eu era meio nervosinho na época, vi que, assim que eu terminava de dar um esporro em alguém, o clima ficava para lá de insuportável. Aí, passei a mostrar a bunda para descontrair o ambiente. Comecei a mostrar, fui mostrando, aí começaram a surgir muitos convites para jantar… (risos). 

Talento usado em várias frentes

Nascido em Del Castilho, subúrbio do Rio, Jorge Fernando parou de estudar antes mesmo de concluir o ensino médio. Logo, decidiu que queria ser ator. Aos 18 anos, transformou a peça Zoo Story, de Edward Albee, no monólogo Zoológico, e começou a encená-lo em barcas e ônibus. No ano seguinte, já estreava no teatro, com o espetáculo Romance, montado pelo Dzi Croquetes. Depois de uma temporada de um ano em Paris, voltou disposto a fazer televisão. Como não conseguia agendar um horário com Walter Avancini, invadiu a sala do diretor. Logo que a secretária saiu para o almoço, entrou, recitando Zoológico. ?Na mesma hora, o Avancini pegou o telefone e ligou para o Daniel Filho. Por sorte, naquele dia, o Daniel estava fazendo testes para Ciranda, Cirandinha…?, relembra. Depois de Ciranda, Cirandinha, Jorge Fernando não parou mais e voltou a atuar em Pai Herói e Água Viva. Em pouco tempo, porém, pulou para trás das câmaras, como assistente de direção de Roberto Talma em novelas como Baila Comigo e Sol de Verão. Como diretor-geral, estreou em Guerra dos Sexos, que inaugurou uma bem-sucedida parceria com Sílvio de Abreu, autor de Cambalacho, Deus nos Acuda e A Próxima Vítima, entre outras. Mas trabalhou também com outros autores, como Janete Clair em Coração Alado, Manoel Carlos em Sol de Verão e Cassiano Gabus Mendes em Que Rei Sou Eu?. ?O Sílvio é o meu grande amigo. A gente nem precisa mais trabalhar junto para saber disso. Mas, com certeza, a gente vai se encontrar de novo…?, promete.

Furacão criativo

Tudo ao mesmo tempo agora. Esse parece ser o lema de Jorge Fernando de Medeiros Rebello. Atualmente, além de Alma Gêmea, ele dirige também o show do grupo A Cor do Som, excursiona com o espetáculo Boom e planeja sua volta para o cinema em 2006. Na tevê, Jorge não vive só de dirigir novelas. Em 20 e poucos anos de Globo, dirigiu de Roberto Carlos Especial a Sai de Baixo. ?Outro dia mesmo, fui conferir a audiência do Não Fuja da Raia e descobri que a gente dava 40. E o pessoal ainda dizia que era ruim…?, brinca, referindo-se ao programa estrelado por Cláudia Raia em 1995.

Fora da tevê, Jorge Fernando também não pára. Recentemente, ele foi convidado para dirigir o show de gravação do CD e DVD do grupo A Cor do Som. ?O que eu gosto mesmo é de fazer coisas novas. Mesmice? Tô fora!?, confessa ele.