São Paulo – Talvez não haja filme tão comovente no cinema dos anos recentes quanto esse Irmãos, de Patrice Chéreau. Não apenas pela história, pela trama, é claro, mas pela intensidade com que ela é filmada e interpretada.

Chéreau, cuja origem é o palco, traz para a tela essa sabedoria da emoção. Esse trabalho interno com os sentimentos dos personagens, tão bem desenvolvido no teatro de qualidade quanto às vezes ausente do cinema. Uma hipótese: mais e mais os cineastas têm se preocupado com a questão técnica (quando não orçamentária) da sua arte e deixado de lado esse fundamento anímico do drama.

Nós o reencontramos no teatro. Ou, como no caso de Chéreau, de quem veio dele para o cinema, trajetória semelhante à de Bergman, por exemplo. Isso não quer dizer que os resultados sejam sempre bons, nada disso. Chéreau vai do excelente Rainha Margot ao discutível Intimidade. Mas, diga-se o que se disser, é um autor de peso, alguém que tem o que falar para o mundo.

No caso de Irmãos, Chéreau retorna a uma de suas temáticas preferenciais, a dos relacionamentos humanos sob condições especiais, quer dizer, difíceis. E, aqui, a dificuldade é extrema, já que temos dois irmãos, separados pela vida, que se reencontram quando um deles está sofrendo de uma doença terminal.

Bruno Todeschini é Thomas e Eric Caravaca vive Luc, há muito separados por vários motivos. Entre os quais, o fato de que Thomas não aceita o homossexualismo de Eric. Seria uma facilidade fazer de Eric o doente, o lado frágil, etc., mas Chéreau vai no sentido inverso. É o machão Thomas quem adoece e, em desespero, vai à procura do outro.

Seria outra facilidade pintar uma reconciliação fácil, como aconteceria no cinema melodramático americano, por exemplo. Mas, ainda uma vez, Chéreau opta pelo caminho mais áspero, procurando mostrar como é difícil e árduo o reencontro de dois seres humanos separados por visões de mundo muito diferentes, senão opostas, mesmo que sejam irmãos.

Enfim, quando entram em cena o pai e a mãe dos dois rapazes, temos a imersão da obra nessa instituição pungente que é a família humana, com seu misto de amor, frustrações, cobranças mútuas e rivalidades. Chéreau desce fundo quando o pai, no desespero, desabafa ao dizer que preferia que o doente fosse o filho homossexual. Dói.

Há coisas desse tipo no filme, de tal profundidade que lembram aquele magnífico verso de Drummond: ?Percebo apenas a estranha idéia de família/viajando através da carne?.

Chéreau busca essa intensidade não apenas pela disposição dos atores, mas pela manutenção de um tom escuro e claustrofóbico na fotografia. Os atores são acompanhados em planos bastante próximos, fechados sobre suas fisionomias.

É assim que acompanhamos a via-crúcis de Thomas pelo hospital onde tenta mais um tratamento para a sua doença misteriosa. Mas é assim também nas cenas que, em tese, seriam de repouso, na casa que a família mantém na Normandia, com seu mar frio e cinzento, sua praia de seixos. Irmãos ganhou o Urso de Prata no Festival de Berlim de 2003.