Instituto lança disco depois de 13 anos e mostra discurso renovado

Chinelos e bermudas. Bonés nas cabeças. Um cigarrinho antes das fotos para cada um. Nada parece ser feito às pressas naquele endereço na rua Cardeal Arcoverde, no boêmio bairro Vila Madalena, em São Paulo. Ali, o Instituto sobrevive há mais de década, como uma grande máquina neste moto-contínuo, com produções de discos e trilha sonoras em compasso próprio. O tempo deles. Nada precisa ser acelerado. E, naquela manhã de sexta-feira, 16, nada parecia ser diferente para Tejo Damasceno e Rica Amabis, músicos e produtores que formam o cérebro do coletivo intitulado Instituto.

Foram 13 anos entre Coleção Nacional, álbum ícone do hip-hop nacional, e Violar, o mais recente disco do grupo, lançado neste sábado, 17, para audição em streaming, e que terá o download gratuito liberado na próxima sexta-feira, 23. O álbum, como o antecessor, seleciona o melhor da música brasileira independente. A distância entre álbuns assusta mais assim, quando escrita. Quando se acompanha o trabalho de Tejo, Rica e, então, Daniel Ganjaman, percebe-se que o grupo permaneceu em movimento constante e, o disco próprio, em si, foi curado aos poucos. “Às vezes, era uma música feita por ano. Gravávamos um instrumento por mês”, sugere Rica. “Pois é, as pessoas pensam nesses 13 anos e já falam: ‘Olha aí esses vagabundos'”, brinca, em resposta, Tejo.

Neste tempo, quinze discos foram lançados pelo Selo Instituto. Seis séries foram musicadas por eles, casos das elogiadas Psi, Cidade dos Homens e O Negócio. O número é mais impressionante quando o assunto é a telona: foram dezesseis filmes, entre eles, os bons Entre Vales, Cão Sem Dono, O Abismo Prateado e, é claro, O Invasor, longa-metragem que trazia a participação de Sabotagem, grande nome do hip-hop brasileiro, morto em 2003, grande parceiro do Instituto.

Curiosamente, Violar nasceu no ano em que saiu o primeiro disco do então trio – Ganjaman deixou o lado de Rica e Tejo por ter sua agenda consumida pelo trabalho com o rapper Criolo. “Tudo começou quando o (rapper) Lyrics Born veio ao Brasil, lembra?”, diz Tejo, buscando o olhar do companheiro de coletivo. Rica complementa: “Era uma música que ele queria gravar com o Sabotagem. Não deu, ele faleceu antes disso, mas aí começamos a trabalhar nesse disco novo.” A música em questão é Seco, a nona faixa de Violar. E BNegão foi chamado para os vocais do rapper conhecido como maestro do Canão.

Entre 2008 e 2009, Tejo e Rica pensaram que o álbum ficaria pronto. Na época, ele já apontava para ser um álbum distante do que se ouviu em Coleção Nacional. Havia menos hip-hop tradicional, com suas batidas secas, menos dub, e mais canções. Ali, não sabiam eles, mas estava já a vanguarda do hip-hop. Soavam, naquele esqueleto do que seria o disco Violar, o fino do hip-hop contemporâneo, quando o experimentalismo jazzístico ganhou espaço no gênero, no Brasil e no mundo – como o ótimo To Pimp a Butterfly, de Kendrick Lamar, lançado neste ano e conduzido pelos revolucionários do jazz atual da costa oeste dos Estados Unidos Thundercat e Kamasi Washington.

“Hoje, ouvimos artistas que também fazem essas misturas, sem aquela lírica bruta e a batida dura”, analisa Tejo.

Violar é um disco combativo como a essência do hip-hop, traz nomes da cena, com Criolo e Sombra, mas abre as portas para experimentações. Até canções pop, com a cantora Tulipa Ruiz, soam como um cruzado de direita. “É um disco de confronto. O hip-hop está mais nas letras, mesmo”, completa Rica.

A entrevista parece seguir o ritmo de ambos no estúdio. A dinâmica é a mesma, um complementa o outro. A hora passa despercebida, como se o tempo, ali dentro, corresse de forma diferente do relógio. “Não temos pressa. Não temos o esquema de gravadora, de fazer um disco, correr para lançar, fazer show, voltar para gravar um novo disco”, explica Rica. “Se você for pensar: os caras passaram 13 anos para fazer um disco. Deveria ser o disco do século”, brinca Tejo. Rica ri e concorda. “É. Nosso esquema é outro.”

Experimentalismo

Treze anos é, de fato, muito para uma banda. Para um coletivo tão experimental e relevante como o Instituto, o número é assustador. O hip-hop, gênero que rege essa mistura, mas que não é a linha condutora obrigatória das canções, seja em seu início, meio ou fim das canções, já não é o mesmo.

O Instituto talvez não soubesse a vanguarda que exerceu na época, ao colocar rappers como o icônico Sabotage, para se aproximar do samba. Mas seus experimentos ecoam até hoje.

Violar, o segundo álbum do grupo, lançado para audição em streaming e com download gratuito a partir desta sexta-feira, 23, chega num outro cenário. O hip-hop não é tão sisudo, duro e perturbado por batidas secas. Até mesmo um grupo como Racionais MC’s é capaz de experimentar mais – como mostraram no recente Cores e Valores.

O Instituto, contudo, atira para outras direções. Flerta-se com o jazz a todo o momento, com as chegadas de grupos como o paulistano Metá Metá, inexistente em 2002, e presente de forma completa em Irocô. Seus integrantes ainda passeiam por outras faixas de Violar.

A experiência com trilhas sonoras de seriados e filmes trouxe um caráter mais imagético para o que se ouve ao longo das 13 canções, desde a instrumental Polugravura até Baía. Cada canção parece estabelecer um tijolo de uma estrutura bolada pelos arquitetos sonoros Damasceno e Amabis. Soam sinestésicos, como se as canções tivessem cor: e ela é cinza, urbana, suja.

Até o lado mais pop, caso de Tudo o Que Se Move, com Tulipa Ruiz, é uma crítica direta ao descontentamento político. “Tudo o que se move há de colidir”, canta ela. O canto é doce e as palavras, amargas. Enquanto o Instituto ilumina o hip-hop com novas experimentações a serem copiadas nos próximos anos, sua temática é extremamente atual. E necessária. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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