As imagens fotográficas podem
renovar o século XXI?

Tudo o que saberei sobre Filosofia me é ensinado por Mário Ferreira dos Santos. E se há algo sobre o que eu possa ousar proferir algumas palavras pela vida, é a Tecnologia Visual Fotográfica. De meu mestre não sou digno de abraçar seus joelhos. E da Fotografia eu me cedo a liberdade de um dia, como Susan Sontag, concluir que o que escrevi é um erro, pois que não corresponde à realidade final de nada. Talvez este sentimento barroco de ser seja apenas o ornamento de minha mortalidade humana. Mas o fato é que quem escreve almeja a perenidade, mesmo que escrever seja apenas mais um ardil para alcançar-se a agradável ilusão de sobrevida.

Alguns fotógrafos alcançam a eternidade. Raros, como é rara a genialidade humana. A genialidade fotográfica é de difícil tradução em palavras, uma vez que é essencialmente um fator de ordem intuitiva. Assim, os rafes – desenhos esquemáticos empregados para desenvolver o senso de composição – são mais eloqüentes para quem deseja compreender o trabalho de um grande fotógrafo do que possam ser eloqüentes os mais belos textos a seu respeito. E as imagens fotográficas em si são o que fundamenta a autoridade do fotógrafo sobre os corações humanos.

E por falar em coração, se me fosse possível – e necessário – salvar dos efeitos devastadores do tempo a obra de apenas alguns fotógrafos, Henri Cartier-Bresson brilharia alto no lugar onde poucos se aproximaram e talvez jamais se aproximem em estatura. As imagens fotográficas de Cartier-Bresson têm a rara combinação de atração e renovação que não se esgotam. Em outras palavras, elas têm numem. [O tema é desenvolvido em Henri Cartier-Bresson & Fotografia, penúltimo ensaio desta série].

De um lado, dois mestres (dos Santos e Cartier-Bresson) e uma arte. E do outro lado da moeda da realidade, a aspiração de valores como a Verdade, a Beleza e a Justiça. Eu não saberia como desenvolver melhor este ensaio do que falando sobre o que me inspira. E, na verdade, sobre o que prosseguirá inspirando gerações de apreciadores da arte fotográfica – sejam estes apreciadores de todos os tempos conscientes ou não do responsável por algumas de suas mais profundas visões de vida, como no caso exemplar de Cartier-Bresson.

A inspiração está relacionada a uma alteração de estado emocional. Foi sob os efeitos da visão do Anjo do Senhor que Maria Madalena e Maria de Tiago, com medo e grande alegria, correm para avisar aos amigos de Jesus que encontraram seu sepulcro vazio. Algumas imagens têm o poder de alterar intensamente o estado emocional de quem a vê. Ao contemplarmos imagens fotográficas de grande beleza tomamos contato com conteúdos conceituais de diversas ordens que renovam o nosso ser – que nos inspiram a sermos mais humanos. E devemos ter em mente que a contemplação fotográfica é uma visão profunda na medida em que envolve todo o arcabouço cognitivo humano.

É grave que, mesmo em suas formas mais acessíveis, estas idéias não estejam presentes em nossas instituições educacionais. Por que engenheiros, médicos, executivos, tecnólogos etc., podem se furtar de ter em sua formação um encontro concreto com a estética? Afinal, uma vez que a inspiração é sempre uma forma efetiva de pessoas e povos criarem o seu caminho singular na vida, por que não desenvolvermos a capacidade de compreender nossas próprias inspirações através dos padrões de excelência mais elevados de nossa cultura? Certamente algumas perguntas permanecerão autenticamente sem resposta por toda a eternidade; mas as mais decisivas delas talvez não sejam respondidas satisfatoriamente simplesmente porque vacilamos mesmo diante de nossas melhores inspirações.

Roberto Lopes é fotógrafo e editor do site de Fotografia exclusivo do Paraná-Online, Pensamento Fotográfico.
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