Antes de as luzes se acenderem, enquanto a sala estiver completamente escura, o público ouvirá uma voz anunciando: “o filme já vai começar”. A frase abre Cine Monstro, um espetáculo teatral. Mas a menção ao cinema diz muito sobre as referências que o dramaturgo – e também roteirista – Daniel MacIvor está a mobilizar.

Como em um romance policial, quem assiste recebe pistas para unir as tramas que se cruzam e adquirem novos significados ao final. Há revelações que aumentam a carga de crueldade do enredo. E a cinematografia de horror, explica o diretor e intérprete Enrique Diaz, foi um dos eixos para organizar a encenação. “Existe algo de filme de terror. Mas vai além, poderia ser visto como um filme de toda a história da humanidade, do cinema como uma projeção do inconsciente”, define ele.

Ainda que sustentado por um texto de ficção, Cine Monstro evoca o formato dos shows de stand-up. Além de viver 13 personagens, Diaz também surge como um mestre de cerimônias e explica, brevemente, o que será visto em cena. “É uma maneira de convidar o público a ver a obra por um viés menos espetacular”, comenta ele, que apresentou uma versão inacabada no Festival de Curitiba deste ano e já cumpriu curta temporada no Rio. “Esse também pode ser um jeito de incluir quem está na plateia sem ser uma peça interativa.”

Traço constante nas criações de MacIvor, o humor é uma das portas de entrada dessa montagem. Um riso que se depara com mortes sangrentas, que advém de sentimentos perversos – indizíveis no cotidiano, mas permitidos aqui. “Como afirmam os budistas, a maneira perfeita de ver a vida é por meio de lágrimas de alegria, ou seja, alegria diante da beleza de todas as coisas e lágrimas por saber que tudo é temporário. Mas acho que é também rir da maneira como levamos tudo a sério quando as coisas são muito simples”, observa MacIvor.

CINE MONSTRO – Sesc Pompeia. R. Clélia, 93, 3871-7700. 6ª e sáb., 21h; dom., 18h. R$ 8/R$ 40. Até 15/12.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.