Ao elaborar, ao conceber o plano geral da sua obra ciclópica, Balzac chegou a sentir vertigens, ante a grandiosidade, a monumentalidade do seu programa de ação. Eis como ele se manifesta no Avant-propos, o prefácio da Comédia humana que ele escreveu em 1842, quando o seu rio romanesco, já em curso, estava ainda longe da foz: “A idéia primeira” da Comédia humana foi para mim, a princípio, como um desses projetos impossíveis que se acariciam por um momento breve e que se deixam depois voar; uma quimera que sorri, que exibe o seu semblante feminino e logo distende as asas, subindo para um céu fantástico. Mas a quimera, como tantas quimeras, acaba por transformar-se em realidade; tem as suas imposições e as suas tiranias, às quais se é forçado a ceder”.

Eis aí as palavras candentes e luminosas de um gênio ciente e consciente daquilo que pode, sabe e quer realizar. Palavras de quem, sabendo possuir os meios, o instrumental, as ferramentas – e o talento, se não o gênio, por que não? – não hesitou um só momento em enfrentar dificuldades colossais para concretizar a sua quimera, o seu sonho. Que não era apenas um shakespeariano Midsummer night’s dream. Que era um sonho com a vocação, se não com a certeza prévia de vir a ser consubstanciado, na superfície lisa das páginas brancas.

Para criar o elenco vasto dos seus personagens, mais de dois mil, ora sombrios, dionisíacos, ora radiantes, apolíneos, Balzac se valeu sobretudo do seu extraordinário espírito de observação e da sua notável capacidade de imaginação, de invenção. Mas ele era dotado ainda de uma peculiar disposição para uma espécie de mimetismo psicológico, de empatia. Isso lhe permitia colocar-se dentro de muitos dos seus personagens, e vivê-los “outramente”, no milagre da “alteridade”, como se fosse outros eus ou heterônimos.

Foi Balzac, sem dúvida, um autêntico rei das letras. Do romance, mais especificamente. Contudo, ele não recebeu o cetro e a coroa de mão beijada. Não herdou o seu “reino” graciosamente. Para conquistá-lo teve necessidade de três coisas fundamentais: trabalho, trabalho & trabalho.

Foi Balzac, sem dúvida, um genuíno e autêntico operário das letras. Alguém chegou mesmo a considerá-lo um “forçado das galés”, agrilhoado durante mais de trinta anos à sua escrivaninha. Dez ou doze horas por dia (ou noite). Às vezes, mais. Só assim ele pôde realizar o “trabalho de Hércules” que é a sua opera omnia galvanizadora, admirável.

Foi rei, insisto. Para sê-lo, porém, foi obrigado a gastar torrentes de sangue, suor e lágrimas. E não apenas em caráter metafórico: concretas, reais. O seu cetro e a sua coroa foram obtidos, pois, a duras penas, num longo, intérmino combate com o verbo elementar, a argamassa com que se constrói o edifício romanesco. Mas não apenas com o verbo. A luta ingente de Balzac foi também contra os próprios personagens que, nascidos da sua pena demiúrgica, pareciam muitas vezes escapar do seu controle, à maneira de criaturas rebeladas contra o criador. Talvez como os anjos de Lúcifer, revoltados contra Jeová.

Uma análise que porventura se faça na vasta tessitura orgânica da Comédia humana revelará ao exegeta eventual uma série de qualidades transparentes: mente profundamente analítica, que sabe observar e descrever, nos seus mínimos detalhes estruturais, o coração pulsante do real; imaginação fértil e abrangente, capaz de inventar ex-nihilo ou de recriar a partir de modelos vivos; adequada utilização do instrumental lingüístico, através de um estilo – ou estilos – compatíveis com o gênio (talvez imperfeito, mas gênio) do seu oficiante, um estilo que não se resume jamais a um mero exercício estetizante “à la Flaubert”, ou seja, a um fim em si mesmo; cosmovisão segura e sensibilidade multimída.

Todas essas qualidades estão patentes ao longo das vinte mil páginas do universo ficcional balzaquiano, mais nítidas aqui, mais diáfanas além. Um universo que nos transmite a clara impressão de ser, não um simulacro ou uma contrafação, ou mesmo uma imitação do mundo real, mas uma espécie de “mundo paralelo”, igual ao outro. Talvez mais real ainda, na medida em que se trata de um universo contido, condensado, quintessenciado. Mais do que isso: não contaminado pelos vírus e pelas bactérias que são as superfluidades do quotidiano.

Por tudo isso, Balzac vive hélas! no tempo e modo que é a sua obra de gênio.