Ilan Brenman é um dos mais conhecidos autores de livros para crianças do País. Filho de pais argentinos, ele nasceu em Israel em 1973 e só chegou ao Brasil em 1979. Sempre viu os pais lendo, e sempre gostou de ler. Era para ter sido psicólogo, mas um estágio na área de educação no clube A Hebraica mostrou um novo caminho.

Foi logo no primeiro dia que tudo aconteceu. Ele tinha 18 anos, foi deixado sozinho pela responsável por alguns instantes e as crianças logo pediram uma história. Ele até tentou convencê-las de que não sabia contar histórias, mas não teve jeito – e foi inventando uma que se tornaria, 8 anos depois, seu primeiro livro de ficção para crianças, O Pó do Crescimento, publicado em 2001 pela Martins Fontes. Nesse intervalo, ele fez, por encomenda, dois recontos bíblicos – e rodou e rodou por escolas e livrarias contando as histórias que inventava e que iam povoando caderninhos (para anos depois também virarem livros).

Ilan Brenman conversou com o ‘Estado’ sobre sua trajetória, sobre a importância da leitura e sobre o politicamente correto, tema de Quem Tem Medo do Lobo Mau – O Impacto do Politicamente Correto na Formação das Crianças (Papirus) – um diálogo entre ele e Luiz Felipe Ponde.

Como foi sua relação com as histórias quando era pequeno?

Sempre fui uma criança muito imaginativa e conseguia brincar sozinho, que é uma coisa interessante. Os pais têm medo das crianças brincando sozinha e acham que elas sempre têm que estar com pessoas. Brincar sozinho é um grande estímulo para a criatividade. Em casa, não houve uma contação de história, mas houve um contágio. Eu pensava: Por que meus pais estão com os livros e não estão comigo? O que tem lá deve ser muito bom. Formamos leitores pelo modelo, e isso vale. Isso vale para tudo.

De que forma a relação com os leitores te alimenta e traz novas ideias de histórias?

Não penso muito nisso para não enlouquecer, mas a marca que um escritor deixa numa criança é muito forte. História é o alimento da infância. História é o alimento da alma humana. Tudo começa na primeira infância. Hoje sabemos também que as histórias são a forma mais eficaz de mexer com a memória, de grudar experiências, conceitos e tudo o mais. As histórias são formativas.

Algum retorno inusitado da leitura feita pelas crianças?

Crianças pequenas (e nós, como adultos, vamos tirando isso delas) têm óculos próprios, que eu chamo de óculos da infância, que não são os mesmos óculos do mundo adulto. Quando você pega uma história, que acha que está abafando, que acha que você, como pai, mãe, professor, entendeu aquilo, e mostra para uma criança ela faz outra leitura.

Os óculos dos adultos estão prejudicando a experiência literária das crianças?

Completamente. Estão atrapalhando e é mais forte que isso. As ideias e os pensamentos têm consequências, e no coletivo isso pode ser um desastre. E o politicamente correto também traz consequências reais. Ele olha a criança de uma forma não complexa e subestima sua inteligência. Eu nunca vi crianças ficando preconceituosas, intolerantes e violentas por causa de histórias. Pelo contrário. Tiramos as histórias, mudamos, limpamos – chamo isso de eugenia literária. Melhorou? Não, só piorou. Mais violência, mais indisciplina na sala de aula, mais ansiedade, mais remédio – remédios ligados ao afeto. É uma coisa óbvia: se tiramos as ferramentas principais dessas crianças para elas desenvolverem seu mundo interno, como combatemos o medo? Falando sobre o medo. É óbvio. Quando a história fala sobre medo, que bom. Você está lá do lado do seu filho pequenininho, o abraça e enfrentam isso juntos. Mas se você decidir não falar sobre medo para não colocar isso dentro dele, quando chegar o medo real ele fica desesperado porque não sabe lidar com ele.

Percebe alguma diferença nas crianças ao longo dos anos?

No mundo interno, a criança não muda – e ela é a mesma em qualquer lugar do mundo. Mas estou reparando reações diferentes, sim, e vejo que isso se desdobra na juventude. Essa violência absurda entre casais; o namorado que leva um não e mata namorada. Alcoolismo, drogas, crianças com medicamento. Isso vem de você não conseguir ser frustrado. O cara não aguenta mais frustração, ele não foi preparado para a frustração já que não pode mais falar sobre esses assuntos. Olha, criança, o mundo é belo, não existe lobo mau, não existe preconceito. A realidade se apresenta, o cara desaba e vai buscar o prazer incessante para continuar sem as frustrações. A pergunta é como sair disso.

Como?

Com informação. Os pais gostam de informação. Eles estão reagindo ao espírito do tempo, processando escolas, pedindo censura de livro, na minha opinião, por falta de informação. Nosso papel, de escritores, pensadores, é informá-los.
Mas está difícil dialogar. Tem que ir pela insistência, uma hora a coisa se abre. Dá para voltar. O cérebro da criança é muito plástico, principalmente o das menores. Com as maiores é um pouco mais trabalhoso. Mas sou esperançoso. Acho que estamos vivendo num círculo. Uma hora volta.

O CAVALO DE TROIA, A ORIGEM
Autor: Ilan Brenman
Ilustrador: Raul Guridi
Editora: Moderna (56 págs.; R$ 51)
Uma história ouvida no Oriente Médio deixou o autor com a pulga atrás da orelha

FAMÍLIAS
Autor: Ilan Brenman
Ilustrador: Guilherme Karsten
Editora: Moderna (40 págs.; R$ 46)
Livro mostra que no mundo existem vários tipos de famílias: os montanheses, os samambaias, os stradiverus e por aí vai

REFUGIADOS
Autor: Ilan Brenman
Ilustrador: Guilherme Karsten
Editora: Moderna (32 págs.; R$ 46)
Narrativa visual repleta de referências históricas acompanha o
deslocamento de várias famílias ao longo dos anos
As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.